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sábado, 26 de abril de 2014

Discussões supérfluas: a omissão reveladora da sociedade contemporânea

Quando conversamos com alguém, sempre focamos no que o outro quer nos dizer. Raríssimas vezes, no dia a dia, tentamos nos atentar para o que ela quer nos esconder através do que diz. Uma das grandes ferramentas para analisarmos este mecanismo inconsciente está na Psicanálise. 
No livro "Freud Pensador da Cultura" (Editora Brasiliense), Renato Mezan, logo no início, situa o leitor na Viena em que nasceu e viveu Freud, a fim de podermos compreender não apenas o tamanho de sua genialidade; mas também para podermos associar o que sua perspicácia captou do ambiente social à sua volta, e que nos permite analisarmos nosso momento atual, seja em família, sociedade, equipe de trabalho, ou mesmo a nós mesmos, quanto ao que tentamos esconder do mundo e, principalmente, o efeito disto ao longo do tempo.
Uma característica que chama a atenção é que Viena estava em decadência no final do século XIX, e até a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) ainda era considerada a capital mundial da cultura, do teatro, da filosofia e do pensamento ocidental, concorrendo com vantagem sobre Paris ou outras capitais européias. 
Viena era uma parte (dir-se-ia que era a principal) do já dividido império austro-húngaro, maior força política da Europa em outros tempos. Mas não vamos focar na história, e sim no principal aspecto que nos interessa neste momento: a cultura. 
O teatro, os jornais, a literatura, tudo refletia cada vez menos a decadência política e econômica da Áustria e de Viena, quanto mais ela ia para o buraco. As liberdades políticas foram cada vez mais sendo restringidas: conforme se aproximavam os momentos tensos que desembocaram na Primeira Grande Guerra, as classes políticas foram se destruindo, antigos acordos foram sendo esquecidos, aristocracia e burgueses se engalfinharam até que os últimos, por dominarem os meios de produção numa época de crescimento industrial, sobreviveram (aos frangalhos, mas sobreviveram). 
Conforme a escuridão tomava conta da Europa, em especial de Viena (econômico e politicamente), a cultura passava a se orientar por temas tão específicos e distantes da realidade cotidiana que, conforme Mezan relata em seu livro, a grande capital austríaca poderia ser chamada de Cidade Potemkim: "uma cidade que esconde sua verdadeira identidade, sua natureza de classe... uma cidade de ilusão... feita de tecido e papelão" (pg. 34-35).
Os cidadãos, como que percebedores da grande penumbra que se cobria sobre suas vidas, e passivos quanto a modificar aquela realidade, passaram a projetar toda a vontade de mudança, o rigor à obediência do certo em contraposição ao errado, à busca da perfeição, nas artes, como nas apresentações sinfônicas, no teatro, na música. O instrumentista que errasse uma nota que fosse em uma apresentação teria sua carreira aniquilada pela crítica de arte nos jornais, no dia seguinte. O Teatro, que passou a focar como tema a mitologia germânica, como que tentando recuperar a essência de uma identidade perdida naquele momento histórico, não passava de um apelo às fontes legendárias e um passado romantizado, de um período em que tudo estava perdido e não se encontravam heróis.
Viena é o retrato do restante da Europa naquele momento. É o ápice e indicador do que ocorre em menor grau por todo o continente, antes da Primeira Grande Guerra. O ardor, a crítica feroz e o detalhismo com que se discutiam nos jornais e nos clubes as peças de teatro ou os romances recém escritos, faltava e muito para a crítica dos políticos, dos governantes, dos especuladores financeiros, dos movimentos antissemitas que já proliferaram... Era já uma sociedade cada vez mais 'aparentemente' alienada, distante e passiva do que estava prestes a eclodir. Digo aparentemente porque todos sabiam, mas não queriam ver. Fingiam não ver que aquela era a realidade que estavam vivendo: prorrogaram até o último minuto uma farsa de vida, de sociedade, de cultura que se agigantou (para fazer frente a uma realidade cada vez mais gigantesca e brutal que se aproximava) até que implodiu em si mesma, para nunca mais recuperar seu 'falso' esplendor.
Vamos trazer esta análise para os dias atuais, para seu trabalho, sua família, para seu país. Quando você está em um ambiente em que as discussões fogem do bom senso comum, e o fervor, a crítica, a ferocidade do debate foge e muito do que seria normal, para assuntos e coisas aparentemente banais, é totalmente certo que algo subjaz a este discurso, que não tem nada de ligação com o real tema que deveria estar sendo discutido mas está (e continuará sendo) postergado. Assunto este com toda certeza mais importante, porém mais sensível, a ponto de aflorar enervamento do seu interlocutor.
Freud estudou muito bem este mecanismo. Jung também. Aliás, para estudá-lo, Jung desenvolveu o teste das 100 palavras, que deu origem ao atual Detector de Mentiras. Claro que o objetivo não era (e creio que, com bom senso, continua não sendo) apenas pegar um mentiroso. É sim ajudar as pessoas a perceberem que estão fugindo do que REALMENTE DEVERIA ESTAR SENDO DISCUTIDO, e esta postergação faz com que as emoções que alimenta cresçam dentro de você até o ponto que eclode a Grande Guerra. Você não fugirá desta Guerra, a menos que coloque sua diplomacia para funcionar imediatamente: analisando-se, sublimando o que te corrói por dentro, antes que suas entranhas sejam todas corroídas e já não reste mais nada a se recuperar.
Vê-se ambientes de trabalho, partidos políticos e famílias que discutem pelos motivos mais banais e inacreditáveis! Mais banais! Mais estúpidos e cretinos possíveis! E não é sem razão: quanto maior a estupidez do motivo da briga, saiba que um grande e sério problema mal resolvido está sendo encoberto e escondido através dos gritos, dos xingamentos, da falta de respeito, do fervor do discurso.
Quer conhecer quais os políticos mais corruptos? Aqueles que tem os discursos mais inflamados, sobre os temas mais inúteis, enquanto temas mais sérios são deixados de lado, são bons candidatos. Quer saber as pessoas em que você menos deve confiar? Naquelas que puxam conversa sobre as mais insignificantes banalidades, e querem discuti-las com você como se a sobrevivência do mundo dependesse disto. Estas pessoas esconderão as coisas realmente importantes de você (se já não escondem de si próprias), e se confiar nelas, corre o risco de receber alta carga de projeção deste iceberg que você é incapaz de perceber que está abaixo d'água. 
Ao ler os jornais podemos ter noção de como nossa sociedade pode estar doente. Se contássemos uma porcentagem para cada tipo de notícia, separando em grau de importância para o futuro de nossos filhos, família, dos demais seres humanos, perceberemos quanta bobagem ocupa a mente das pessoas, e a partir daí, podemos deduzir quantas outras coisas, proporcionalmente, NÃO QUEREMOS DISCUTIR, por não acreditarmos que podemos mudar, por não querermos mexer neste ninho de vespa, por querer IR EMPURRANDO COM A BARRIGA!
Hoje de manhã ouvi uma bela crítica sobre o livro 'Macunaíma', de Mário de Andrade. A frase que me chamou a atenção, do próprio Mário, é a de que 'não há dúvida de que Macunaíma é brasileiro, mas ninguém poderá afirmar que é "O Brasileiro"'. Que coincidência, justo hoje em que já havia me programado para falar deste tema. Macunaíma não tem caráter (segundo este nobre crítico) não porque seja de má índole, mas porque não consegue unir em torno de um objetivo de vida todas as suas características humanas. Ele vai postergando, vai levando, e só toma decisões ou age quando é obrigado, e não tem mais escolha. 
Não sei quantos brasileiros já leram Macunaíma. Creio que não são muitos. Dos que leram, não sei quantos entenderam (provavelmente menos ainda). Dos que entenderam, creio que uns pouquíssimos fizeram uma autocrítica, de si próprios, como brasileiros, do tamanho de nosso fardo cultural. É difícil demais ter um mínimo percepção da realidade e ao abrir um jornal ver que metade das páginas fala apenas de futebol, e a outra metade está dividida entre descrições de crime, brigas políticas pelas mais bizarras idiotices e que não resultarão em nenhum crescimento, nenhuma ordem nem progresso de nossa sociedade, além de algumas fotos e notícias de celebridades que nada tem de célebres.
O problema não é quanto você em sua família, em seu ativismo político ou na sociedade não quer discutir os assuntos que realmente farão a diferença. A questão é o quanto você dá ouvidos e deixa transcorrer, mesmo como ouvinte, a discursos sobre bizarrices e imbecilidades sem nenhuma importância para seu futuro ou das pessoas que lhe importam. Você está deixando o espaço do discurso ser ocupado pela incompetência mental de alguns, e pela esperteza imoral de outros (que sabem o que querem esconder), mesmo quando utilizam um pseudo discurso de ajuda (que não passa de autopropaganda de ações sem efetividade social).
Pense nisso cada vez que for dar ouvidos a alguém que estiver efusivamente criticando algo que não tem nenhuma importância: o que ele está querendo esconder? Você perceberá  que a flor que ele te mostra com uma mão, te faz não perceber a carteira que lhe roubou e está  na outra mão, às costas.

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