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sábado, 3 de maio de 2014

FOBIA: o que é, como se desenvolve, qual é a causa, por que a temos?

Pessoas que tem medo de viajar de avião, ou de atravessar uma ponte, ou até de chegar próximo a algum alimento, como um tomate, por exemplo. Você tem algum medo? Quer saber o que caracterizaria este medo como Fobia? O tema não é assim tão complexo. É profundo (extenso para quem quiser se aprofundar) mas não é tão difícil de se entender, desde que você tenha a mente aberta para a ciência.


O que caracteriza um medo como fobia são três coisas basicamente:

  1. A desproporção entre o estímulo que causa o medo e a resposta ao estímulo
  2. A discrepância entre as reações corporais e como você sabe que é correto agir
  3. Desequilíbrio interno (de sentimentos, de percepções, etc.)
Ter medo de cobras é natural. Assim como medo de aranhas, de jacarés, de animais peçonhentos no geral, além de todo predador com garras e dentes desafiadores. Porém, a moderna psicanálise já descobriu que apenas o registro genético que o ser humano tem para temer estes 'riscos' não é suficiente para a maioria das reações desproporcionais. Tanto é assim que um cuidador de zoológico pode não ter medo destes animais, tanto quanto qualquer outra pessoa, desde que se acostume a lidar com eles, não é verdade? Já está aí um primeiro sinal, de desproporção entre o estímulo e a resposta ao risco. Se algo não traz um risco à sua vida (tratar de animais peçonhentos com equipamentos e condições de segurança) não há o que temer.
Se você sabe que viajar de avião é um dos meios mais seguros de transporte, se convence mentalmente de que nada deve temer, mas conforme vai se aproximando dele, começa a suar frio, a tremer, até o ponto em que pára na porta do avião e não consegue mais se mexer, mesmo que sua mente diga que não precisa temer... esta pode ser uma fobia. 
E por último, se você não consegue descrever exatamente porque não gosta ou tem repulsa por algo, sente vagamente uma grande quantidade de sentimentos estranhos, mal definidos, porém negativos, com uma mistura de curiosidade com vontade de se afastar do objeto do medo... esta ambiguidade de sentimentos também pode caracterizar uma fobia.

Freud, Melanie Klein, Winnicott; diversos psicanalistas estudaram o tema, e hoje sabemos com certa precisão que grande parte das fobias tem causa em questões na tenra infância. Há sim traumas adultos, situações que chocam de tal forma o ego que geram uma marca profunda a ponto de gerar uma fobia, porém são minoria, e mesmo nestes casos, as fobias geradas possuem uma ou outra raiz em questões da infância.
As crianças (e falo aqui da infância em seu início, já por volta de um ano de idade), possuem alta percepção do que está ao seu redor, percepção muito maior que a nossa, de adultos, que é seletiva a tal ponto que perdemos muito do que realmente ocorre à nossa volta. Somada a esta aguçada percepção, a criança também possui pouco e vago conhecimento e discernimento para entender o que se passa. Esta mescla leva a um estado de grande ambiguidade de sentimentos, de sensação de insegurança, falta de proteção, de fragilidade. Para tentar dar sentido a tudo isso, e preencher o espaço vazio causado pela falta de conhecimento, ela utiliza da fantasia. E esta é a chave da criação de muitas fobias (ao mesmo tempo que é ferramenta do auto-desenvolvimento da criança.
Quando a criança vê seus pais discutindo e brigando, por exemplo, não sabe aonde isto irá acabar: em sua cabeça, a fantasia a faz imaginar que ao final seu pai mate a sua mãe e a própria criança... pode também imaginar que os pais se juntem e a matem, ou que após a briga eles irão expulsá-la de casa e ela não fará mais parte daquela família... a fantasia faz o trabalho de tentar entender tudo aquilo, mas a criança não tem o conhecimento de saber o que se passa na realidade. E esta função, que pode parecer exagerada, para um adulto, é mais comum na criança do que se pode imaginar. Quase tudo é fantasiado, e a partir da fantasia, outros mecanismos da mente passam a funcionar.
Desde cedo a criança percebe, em geral, que os pais, e principalmente a mãe, são aqueles que a protegem, apesar de haver momentos em que se sente desprotegida. Aos poucos sua mente tenta resolver a questão da ambiguidade de sentimentos: desproteção X proteção dos pais... assim como a ambiguidade de outros sentimentos com relação aos pais e a outras figuras ao seu redor. Ela passa, então, a projetar todos os sentimentos ruins em objetos, em geral de fantasia, para proteger sua imagem parental, por exemplo. Aí que se criam: as bruxas, os monstros, os fantasmas, e tudo que dá medo, e ao mesmo tempo aguça a curiosidade (por isso adoramos filmes de terror...).
No episódio 'Uma Vida Turbulenta' de 'Os Simpsons' (assista Episódio 'Uma Vida Turbulenta' de 'Os Simpsons', completo, no UOL) os roteiristas dão um bom exemplo de conhecimento psicanalítico do que é Fobia. Neste episódio Marge descobre que tem Fobia a voar de avião. Ao buscar tratamento com um psicanalista, descobre que na infância, levou um grande choque ao descobrir detalhes da profissão de seu pai: na família todos diziam que ele era piloto de avião, mas ao visitar de surpresa, um dia, descobre que na realidade ele era um comissário de bordo. Apesar de parecer uma bobagem, o choque da 'humilhação' de ver seu pai atendendo os passageiros em vez de pilotando o avião causou tal trauma que, como ela não poderia deixar de 'amar' seu pai, o choque da mentira foi substituído pelo 'medo do avião'. Este é o mecanismo básico da maioria das fobias.
Há fobias até mais complexas que esta. No caso do ' pequeno Hans', Freud praticamente fundamentou toda sua teoria do complexo de Édipo. O menino tinha medo de cavalos, este é o início da história... longa história que recomendo ler (Volume X das obras completas de Freud - Editora Imago). Basicamente o complexo de Édipo do menino, marcado por muita insegurança, medo, angústia de ser separado de sua mãe por um pai 'pretensamente' castrador e das dúvidas por não saber de onde viera sua recente irmãzinha Hanna, causavam tantos conflitos em sua mente que a vinculação de todos os maus sentimentos em um único objeto (o cavalo) foi uma solução que sua pequena mente encontrou para que sua consciência conseguisse se manter por um certo tempo distante do problema, mas ao mesmo tempo, focado nele, para resolvê-lo quando pudesse.
Esta é uma grande função da fobia, quando causada por questões imaginárias, da infância: permitir que a pessoa possa lidar com um conflito interno de sentimentos, sensações, pensamentos da tenra infância, ainda não resolvidos, quando ela tiver estrutura para tal. O problema é que conforme crescemos, vamos empurrando estas questões mal resolvidas cada vez mais fundo no inconsciente, querendo esquecer aquilo que já temos condição de resolver, na maioria das vezes.
Também por esta razão o simples condicionamento do contato gradual com o objeto da fobia não pode ser a única solução. Tem de se trabalhar a parte comportamental (aproximar-se cada vez mais do objeto do medo, até que não tenha tanto medo assim dele e consiga gerar respostas próximas do satisfatório, como conseguir voar de avião, por exemplo) mas também a parte psíquica, a origem do medo, geralmente na tenra infância. Caso não faça isto, o medo sairá de um objeto e será projetado em outro, em uma nova oportunidade. E a questão profunda, do inconsciente, a ser resolvida, continuará na penumbra da alma, te atormentando, seja em sonhos (outra forma de expressão das fobias), como lembrando-te de suas questões não resolvidas, seja na vida real, perturbando seu convívio social.
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