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quinta-feira, 29 de maio de 2014

Pergunta 24: Você prefere ser um gênio angustiado ou um bobo alegre?

Não entendeu a pergunta? Provavelmente você não leu o livro Fausto, de Goethe. Leia. Mas se não puder ler, apesar de não poder resumir aqui uma história tão bela e profunda, tentarei explicar um dos pontos principais sobre o qual a história se desenrola.
A questão básica é o quanto você quer se aprofundar sobre o significado da vida. Se busca seguir o conselho do filósofo “Conhece-te a ti mesmo...”, e procura constantemente se aprofundar sobre os mistérios da vida, saiba que é um caminho sem volta. Creio que no livro citado isto ficará claro na analogia feita por Mefistófeles a Fausto, sobre o retorno do último à ignorância, quando explica que nunca será o mesmo após ter tido contato com um conhecimento mais profundo da vida.
A vida não é apenas seriedade, claro. Há momentos em que até o mais sisudo dos gênios dá sua gargalhada despreocupada. Mas saiba que quanto mais você busca conhecer os maiores mistérios de si e do mundo, mais temeroso e fascinado você ficará sobre o que é a vida. Para usar as palavras corretas, de meu querido professor Waldemar Magaldi, ‘tremendum y fascinorum’.
As pessoas que conheço que acredito conhecerem algo mais do que eu, sobre os grandes mistérios do ser humano, tem geralmente um ar contemplativo da vida. Procuram não intervir no ritmo natural das coisas, seja das boas ou das más (diferentemente de mim... está aí um indicador de que eu tenho muito a aprender ainda). Mas também, ás vezes, com um simples olhar, ou a menor das palavras, conseguem fazer uma montanha caminhar. Não são pessoas sisudas, mas percebe-se a sacralidade com que tratam qualquer assunto, por mais banal que seja. Tudo é muito sério, por mais bem humorado que discuta a questão. Viver é um presente dos céus; deve-se ser grato e fazer jus a tal presente, com honradez e retidão.
Creio que este nível de profundidade só é alcançado já próximo da grande iluminação final. No meio do caminho, acho ser natural uma mescla do gênio com o bobo. Talvez até a predominância do bobo seja melhor, desde que não percamos a vivência da profundidade do momento, de cada momento.
Não faz bem viver só como um bobo alegre. Percebo a predominância, nas artes de grande massa de nosso país, da comédia, por exemplo. Como toda arte, reflexo do que predomina nas mentes em geral. Raríssimos filmes nacionais que não sejam deste gênero ou de violência (outra grande diversão ligada a instintos básicos, não à evolução espiritual), fizeram sucesso, como O Quatrilho, Central do Brasil ou O pagador de Promessas. Não reclamo da existência do gênero comédia, que fique bem claro: o mal é a predominância total do mesmo, e o repúdio do público (caracterizado pela baixa bilheteria) a qualquer história que toque num tema mais sério, sem apelar para risos e gargalhadas.
É interessante analisarmos nossos vizinhos sulamericanos, os argentinos, de onde surgem a tempos grandes mestres do cinema mundial e também psicanalistas de renome (não creio que seja coincidência as duas coisas). Tidos como pessoas mais 'frias' que os brasileiros (puro esteriótipo, garanto!), produzem histórias profundas de sentido, com um cinema de baixo custo, e alta aceitação mundial de crítica. Raríssimas as cenas de apelação para o sexo, violência ou comédia escrachada. Quem tem conteúdo não precisa apelar para tais artifícios.
Poderíamos também analisar até que ponto o estereótipo de ‘Macunaíma’ realmente caracteriza o brasileiro médio. Questão espinhenta, reconheço. Mas creio que só evoluiremos como país quando abrirmos espaço para a autocrítica muito mais do que a crítica que fazemos a outras culturas e países. 
O que se pode fazer, então? Contemple a vida, com a seriedade que ela merece, e não leve a sério coisas que não farão diferença para seu futuro nem o das pessoas que você quer bem... verá que só com isso eliminará muita tensão desnecessária em seu dia a dia. Brigar pelo resultado do BBB é importante? Gastar seu tempo vendo as mazelas do Planalto central quando discutem a cor do cavalo de Napoleão? Vá brincar com seu filho(a); vá visitar a pessoa que ama; leia um bom livro... que ganhará muito mais em sua vida,  Pense nisso!
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