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sábado, 28 de junho de 2014

Complexo de ÉDIPO: o Mito, a Teoria, as reflexões sobre nossa postura frente à vida

A figura representa Édipo, no clímax da peça de Sófocles - Édipo-Rei, quando ao descobrir que realmente havia casado com sua própria mãe e morto seu pai, tal qual havia sido alertado diversas vezes em vida das desgraças que o destino lhe guardava (e ignorou, apesar de constantemente afirmar buscar a verdade - que na realidade não queria ver), fura seus próprios olhos com os fechos das vestes de sua mãe, recém enforcada por suicídio, e a partir dali olha para seu próprio interior e compreende a eterna angústia e sofrimento com o qual terá que conviver o resto de sua vida.
Fortes as palavras? Sim, tal qual é forte o peso da vida para todos que refletem sobre ela, e não devemos nunca deixar de lado os milênios de conhecimento humano que as gerações atrás de nós deixaram, sob pena de ignorar nossa própria essência, e cometer erros dos quais já fomos prevenidos.
Minha intenção neste texto não é discutir em profundidade o Complexo de Édipo, por diversos motivos: precisaria de muito espaço de texto e tempo do leitor para esmiuçar a teoria Freudiana e Kleiniana; somente estaria repetindo conteúdos (alguns muito bons) já disponíveis na internet, de domínio público, como a própria obra Freudiana; mas principalmente: é um tema chave e muito polêmico, mesmo passando mais de cem anos após as publicações do mestre da Psicanálise, e ainda consideramos o Complexo Edipiniano um grande Tabu, que leva a qualquer pessoa que queira discuti-lo direta e publicamente a arriscar-se ser linchada sem direito de defesa. Digo por experiência própria, que me levou a, assim como a totalidade dos psicanalistas de plantão, a guardar determinados temas a círculos fechados em que se tem a certeza de um mínimo de abertura para discussão de temas tão profundos (e ainda tabus na sociedade 'pseudo-desenvolvida' moderna).
Então, quando resolvi falar deste tema (tenho uma lista de temas que pretendo falar semanalmente no site), pensei na melhor forma de lidar com ele para que a grande maioria das pessoas que tenham acesso ao nosso site entendam o significado simbólico do complexo, e sua enorme influência em toda a vida e sociedade.
Separei por tópicos, deixando claro que estarei longe de esgotar um tema tão profundo, e de que tenho mais a intenção de instigar o leitor a interessar-se pelo tema (e aprofundar-se por outras vias) do que querer ensinar psicanálise (o que deixo para colegas da área muito mais preparados do que eu, um mero 'curioso' na área, e por vezes, 'intrometido'... sei disto e peço perdão... o que não me impede de continuar sendo o que sou...).

O Complexo e o Mito

Se você não teve a oportunidade de ler o mito Édipo-Rei, leia-o. É importante para entender a teoria do Complexo de Édipo. Para quem não conhece a teoria, criada por Freud, basicamente (e muito resumidamente) fala do interesse que temos por um dos pais (o do sexo oposto) e da vontade de afastar-se (por vezes, simbolicamente, até raiva, ódio) pelo outro dos pais (o do mesmo sexo). Primeiro devo dizer que Freud utilizou o Mito de Sófocles porque ele queria provar que tal 'situação psicológica' era inerente ao comportamento humano, por já existir a milênios. O mito, criado séculos antes do pai da Psicanálise, comprovaria isto. 
Segundo, que o Mito tão bem representou a teoria, porque toda história que nos comove, choca, enfim, que nos toca profundamente, é porque encontra ressonância em algo dentro de nós. E invariavelmente, há séculos esta peça permanece profunda para qualquer ser humano que tenha um mínimo de sensibilidade. Se nos toca, é porque há algo dentro de nós que se identifica com ela. Assim como novelas, filmes, livros... Há algo de verdadeiramente humano nela. E é o que chamamos Complexo de Édipo.
Terceiro, e muito importante: a vontade de 'matar' um dos pais (o do mesmo sexo) para ter unicamente a si o pai do sexo oposto é SIMBÓLICO, não necessariamente real (a realização desta ação seria uma anomalia comportamental, um ato de alguém doentio). Simbólico porque, primeiro, a criança-jovem (e o adulto que não superou tal fase) ainda tem uma percepção parcial da realidade, em que encara o ser pai/mãe como objetos de desejo/repulsa, e não como pessoas com as quais tem que lidar. 
É importante conhecer o desenvolvimento Freudiano por três fases básicas: a fase narcisística, a edipiniana e a maturidade. Na primeira, o objeto de desejo/prazer é a si próprio (porque o indivíduo não tem capacidade de perceber o que está à sua volta como seres inteligentes e independentes como ele mesmo). Na segunda, ele projeta seu desejo de possuir e de afastar nas pessoas que estão mais próximas e nas mais importantes/influentes: o pai e a mãe. Na terceira (em tese) ele perceberia a todos à sua volta como seres independentes, perceberia a angustia de viver em sociedade, de ser um entre vários, a angústia de sofrer e somente conhecer por dentro a si próprio, nunca o interior dos outros.
Pois a fase edipiniana se concentra nos pais pois são os dois mais importantes seres para ele, em determinada fase da vida. Sofrer o conflito do complexo de Édipo é viver muito além do tempo necessário a fase em que percebe seus pais (e posteriormente todas as outras pessoas) quase como 'objetos', aos quais se dá o direito de querer ou não querer próximo. Só alguém maduro entende que não escolhemos as pessoas com as quais convivemos, e isto não diminui a importância de cada um. Mas para alguém que sofre de complexo de Édipo, nenhum relacionamento tem bases reais, saudáveis e profundas: o mundo, as pessoas estão para servi-lo, ou então são alvo de sua raiva, rancor e ódio para afastá-los de si quando não se comportam como ele crê que devem se comportar.
Sei que algum colega psicanalista que leia talvez se ofenda com a superficialidade desta explicação. Mas não pretendo me aprofundar em termos técnicos (que podem até afastar alguns leitores desta página e assunto). Talvez com esta explicação, mesmo que superficial, consiga trazer alguma luz de aceitação para esta teoria tão importante e tão rejeitada popularmente.

Édipo e a Verdade

Édipo realmente, ao longo do Mito, é alvo de diversos contratempos do destino. Quando criança não causou nenhum dos problemas dos quais foi vítima. Muitos autores até interpretam que uma das causas teria sido a possessividade e irresponsabilidade de seus pais, inclusive de sua mãe. Em um trecho da peça, Jocasta se recusa que tentem prevenir seu filho (ainda pequeno) da maldição que o destino lhe reservava. Para ela, deveria-se viver a vida a cada dia, pois o futuro é desconhecido e o passado imutável. (Seria esta uma interpretação leviana do 'Carpe Diem' como muitos fazem atualmente? Eu acho que sim....).
Quando adulto, já com seus pais adotivos, Édipo busca incessantemente a verdade, porém nunca acredita nela quando lhe é revelada. Não acredita que seus pais são realmente adotivos. Não acredita na pitonisa que prevê as desgraças que acontecerão em sua vida. Não acredita em ninguém que afirme o que se comprovará ao longo da peça. 
Não utilizo o mito para divulgar a crença em destino ou outra coisa parecida. Quero é discutir a postura que Édipo tomou, e que vemos muito atualmente. Pessoas que dizem (e até acredito que pensam buscar) a verdade, mas quando são confrontadas com a mesma, a negam, porque só aceitam a verdade que realmente querem ver, aquela que criaram... Esta é uma das bases do Complexo de Édipo e de todas as Neuroses e dos problemas psicológicos: acreditar somente no que se quer ver. Se Édipo acreditasse que realmente iria matar seu pai e casar-se com sua mãe (que posteriormente se mataria ao saber disto) como foi prevenido, não podemos afirmar que este não seria seu destino, mas talvez não passasse o restante de sua vida em sofrimento e angústia, que seria carregada por gerações e gerações.
O mesmo ocorre no mundo da psicologia hoje. Temos tanto conhecimento do que aflige a sociedade, temos tanto conhecimento disponível (seja na internet, livros, na acessibilidade a psicólogos, psiquiatras, terapeutas), e cada vez mais graves são os problemas comportamentais que vemos nas ruas e nas casas das pessoas. Não que as pessoas deixem de se comportar de maneira prejudicial... mas pelo menos a diminuição da angústia e do sofrimento humano (PRINCIPAL OBJETIVO DA PSICANÁLISE) permitiria que levássemos o tempo entre nosso nascimento e nossa morte de modo mais produtivo e livre, para nós mesmos e para nossos descendentes. 
Necessário falar dos descendentes, pois parece figurar nos livros (mesmo que de modo reservado, para não parecer uma culpa) a responsabilidade, pelo menos parcial, dos pais, em especial da figura da mãe, na boa ou má condução deste período de vivência do complexo de Édipo, que pode, juntamente com a personalidade inata do indivíduo e das condições do ambiente, definir se este será capaz de superar esta fase e chegar na maturidade, ou ficará eternamente preso a esta visão infantilizada, esquizóide da vida.

A angústia e a Maturidade


Fica claro na obra de Freud e de seus seguidores que a Maturidade, o período em que adquirimos uma percepção realista da vida, da importância, inteligência e independência das pessoas à nossa volta frente aos nossos desejos, necessidades, ações, objetivos, também é um período marcado por intensa angústia, sofrimento, e um certo nível de depressão.
Perceber a vida como ela realmente é não é necessariamente algo bonito. Ao furar os próprios olhos Édipo percebe que não via o que realmente deveria ver: o seu próprio interior. E ao ver seu interior, começou a ver a todos que estavam à sua volta. A angústia, o sofrimento, a depressão não foi pela suscetibilidade humana frente aos desígnios do Destino, afinal, isto é algo a que todos nós estamos sujeitos. Se algo tiver que acontecer, além de nossa vontade (e muita coisa pode ocorrer desta forma), não teremos escolha, não teremos como impedir. Mas podemos nos preparar, seja fisicamente, ou emocionalmente, para estarmos preparados para enfrentar o que o Destino nos impõe. 
Édipo não escolheu ser abandonado a morrer por sua mãe Jocasta. Não escolheu ser adotado. Não escolheu seus pais adotivos, tampouco seus pais biológicos. Tampouco nós escolhemos coisas assim. Mas Maturidade significa aprender a lidar com as coisas que não podemos escolher. A perceber que não precisamos odiar um de nossos pais para competir pelo amor do outro. Isto é de tal forma tão inconsciente e ocorre em cada um de nós, que somente após um árduo trabalho psicanalítico (ou uma rara e profunda autopercepção) conseguiríamos perceber que involuntariamente agimos assim, primeiro com nossos pais, e depois com as demais pessoas à nossa volta, sem respeitar a individualidade, a vontade, o ser que cada um é, independentemente do que nós queremos que aconteça ou não.

Espero ter esclarecido um pouco (bem pouquinho mesmo...) da grandiosidade desta teoria e deste Mito. Se você se interessou, leia o livro (está disponível na internet em diversos sítios) a peça Édipo-Rei, de Sófocles. Depois, leia interpretações desta peça, disponíveis na internet. Leia várias. E só depois, leia textos psicanalíticos sobre o tema, começando por Freud, passando por Melanie Klein (estes dois são obrigatórios sobre o tema), além de diversos outros autores. Quem sabe assim desvendamos um pouco mais estes gigantes do conhecimento humano, tão esquecidos e mal vistos por grande parte da população ainda hoje!
Até mais!


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