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sábado, 14 de junho de 2014

Medo, Pânico e Terror: qual a relação? Como lidamos com nossos medos? A esperança SEMPRE vence o medo... Saiba mais

O Medo e o Amor são os dois sentimentos com maior capacidade de influenciar o comportamento humano e guiar todos os demais sentimentos e sensações. Porém há muito tempo o homem descobriu que coisas como o Poder podem se sustentar no Medo e assim, controlar pessoas por um tempo indefinido. O medo é um encruzilhada de todos os sentimentos dentro de nós. Todos os outros, em algum momento, devem passar por ele. Ansiedade, Angústia, Insegurança, Depressão, Pânico, Terror, Desamparo, Surpresa, agressividade, Pavor, Vingança, Horror, Raiva, Vergonha... e posso continuar indefinidamente, todos passam pelo Medo, e se transformam nestes outros tipos por conta do modo como nossa mente lida com as situações de medo não definidas.
Totem e Tabu, uma das obras primas de Freud, explica como funciona, socialmente, o mecanismo inconsciente de simbolização do medo. Você sabia que nós não conseguimos lidar muito tempo com um medo indefinido? Sim. O pior tipo de medo é aquele que não conseguimos definir. É o mais perigoso, pois nossa mente não sabe de onde ele vem, como ele é, que mal exato pode nos fazer, e como faremos para nos proteger. E é aí que entra nosso mecanismo mental de simbolização. Este é um termo que já usei diversas vezes aqui, e repetirei outras milhares: o ser humano é um ser simbólico. Ele usa símbolos para criar respostas a tudo aquilo que não entende, não compreende. E esta é a chave de como lidamos com o medo, mesmo que a resposta não seja racional.
O ser humano não sabe lidar com aquilo que não consegue definir: GUARDE BEM ISTO! Esta informação é utilizada a tempos por pessoas que tentam manipular as outras por meio do medo, principalmente. Todas as vezes que sofremos alguma ameaça de algo que não conseguimos definir, rapidamente nossa mente busca algo ou alguém que seja o ‘ameaçador’, e projeta nele o objeto de temor. Este é o ‘totem’. E porque fazemos isto?

Porque para nós, seres humanos, mais importante é a SENSAÇÃO de segurança do que a segurança em si. Desejamos ter a sensação que temos o controle da situação, e para isto, ao crermos que alguém ou algo é diretamente responsável pela ameaça, nossa mente passa a criar também o ‘Tabu’: não preciso me defender de tudo ou de todos, basta fazer o possível para agradar ou não incomodar quem é a ameaça, ou, se vou me submeter, basta que eu respeite o ‘tabu’, que são as ‘regras’ de comportamento que eu ‘acredito’ que o ameaçador quer que eu obedeça. Simples assim. Queira você ou não, nós seres humanos somos tão primitivos quanto os primeiros hominídeos há 10.000 anos atrás. Não acredita? Vou me aprofundar ainda mais, correndo o risco de falar demais... (mas eu sempre gostei deste risco...)
Há ditos populares que expressam profundas verdades humanas. Aliás, ditos e piadas são os melhores jeitos de falar certas coisas que não suportaríamos ouvir de maneira direta. Com um bom senso e honestidade você admitirá que há pessoas que só vão procurar seu ‘Deus’ ou sua ‘crença’ em algo superior quando passam por sérios apuros, não é verdade? Pois isto se baseia no mesmo princípio acima dito. O ‘Totem’, assim denominado, pode ser qualquer coisa, desde um ‘Santo’, uma pessoa, um ‘objeto’ como um amuleto, por exemplo, uma ‘oração’, e assim por diante. Junto ao Tabu (regras de comportamento que nos impomos para agradar ou não ‘desagradar’ ao ‘totem’), vem também o ‘ritual’, que são procedimentos para ‘render graças’ ao ser poderoso. Ás vezes o ‘Tabu’ e o ‘Ritual’ estão tão interligados, e acabam fazendo parte de um mesmo escrito, e formando uma religião, um grupo, uma cultura, até uma nação... sim, talvez você já esteja entendendo onde vou chegar, não é?
Não é sobre religiões que irei falar. Sei que diversos amigos ateus leem meus escritos, e os respeito tanto quanto sou respeitado por eles. Sou religioso, mas antes de tudo respeito a total liberdade humana de crença (coisa que estamos longe de atingir atualmente, seja no Brasil ou qualquer outro lugar do mundo). Estou querendo na realidade falar do PODER, e do uso do MEDO para mantê-lo.
Infelizmente, em especial em ambientes de trabalho, pessoas se utilizam deste mecanismo do medo para impor-se, sem encontrar resistência. Cabe ressaltar que quanto menor o nível intelectual e de discernimento das pessoas, mais propensas estão a caírem nesta fraqueza humana, de criar a imagem de algo ‘poderoso’ onde talvez não exista nada. Já deve ter lido Dom Quixote, e o trecho dos moinhos de vento que ele acreditava serem gigantes... é mais ou menos isto que ocorre hoje, como sempre ocorreu...
Capacidade intelectual não está ligada, neste caso, à formação educacional. Conheço doutores que pouco sabem da alma humana e de si próprios. Falo da capacidade de auto percepção e se sensibilidade humana, algo que só se conquista através do profundo contato com outras pessoas, diretamente, vivenciando e sentindo através da empatia seus problemas, dúvidas e sofrimentos.
A Idade Média na Europa foi o primeiro período em que o Medo foi institucionalizado a ponto de se transformar em cultura, forma de sociedade, comportamento e religião, tudo ao mesmo tempo. Respirava-se medo. E o principal motor foi a Peste.
A transmissão da Peste gerou um grande medo na idade média. E este medo se converteu em outros sentimentos. Como ninguém sabia exatamente de onde provinha esta doença a sociedade como era conhecida correu grande risco de colapso. Nada se sabia sobre a forma de transmissão (era transmitida pela pulga dos ratos), seus sintomas específicos (poderia variar de acordo com a pessoa), e principalmente qual seria a forma de preveni-la e curá-la.


Para que o medo não se transformasse em PAVOR (um medo incontrolável que poderia se transformar em total desordem civil, as autoridades rapidamente direcionaram-no para figuras que já recebiam ‘projeções’ negativas da população. Então, em diversos pontos da Europa passou-se a culpar os ‘estrangeiros’, as ‘bruxas’, deficientes mentais e a qualquer um que não seguisse os ‘tabus’, regras, ou ditames ‘eclesiásticos’ corretamente.
E foi desta forma, queimando, prendendo e torturando inocentes (tidos como os ‘culpados’ por ‘desagradar’ ao ser que realmente temiam, que era ‘Deus’) é que as pessoas conseguiam lidar com seus Medos. Para quem duvida ou quer se aprofundar sobre o tema, procure ler o ‘Malleus Maleficarum’ (Martelo das Bruxas), espécie de manual de julgamento e tortura da Idade Média.
Mas não duvide que haviam pessoas com boa capacidade intelectual e discernimento no poder naquela época. Sim, existiam. Mas ficaram muito mais satisfeitas em ver todo o medo (e a energia resultante da vontade de fuga) projetada em minorias e pessoas mais fracas e sem voz na sociedade, ao risco de uma total desorganização social, com pessoas fugindo de seus países pela contaminação da Peste, e verem-se sozinhas tendo que se defender das grandes massas de doentes que sobrassem. A verdade era muito mais assombrosa. Era melhor deixar que acreditassem nestas projeções.
Criou-se então a cultura do Terror. E para este Terror, as autoridades utilizavam dois institutos básicos: a coragem para defesa da honra e o medo de um julgamento divino (ou terreno). Para a coragem, instigava-se a obrigação cristã de cuidar dos mais doentes (enquanto estes pobres coitados se contaminavam em meio à grande massa de pestilentos), além de uma pretensa ‘ordem divina’ vinda através do Sr. Feudal, dos Reis e demais nobres para a defesa da terra e do feudo (enquanto vários nobres fugiam para regiões mais seguras, ainda não atingidas).
Quanto à instigação pelo Terror de ser julgado como covarde e não cumpridor de suas obrigações, isto foi ‘necessário’ depois que a peste começou a atingir nobres e camponeses, sem distinção. Todos começaram a perceber que nenhuma lei ou poder feudal serviria para controlar as hordas de pessoas desesperadas. Foi então que penas duras, incluindo penas de morte, foram aplicadas em larga escala para os funcionários do Estado e todo aquele que fugisse às suas obrigações. Foram tempos difíceis, mas você acredita que estamos muito distantes disto hoje?
Pensamos e agimos da mesma forma. Hoje, vivemos sob a falsa aparência da solidez e força de instituições que podem decair à menor demonstração de fraqueza frente a algum medo indefinido. Basta assistir a alguns filmes de ficção científica que contem histórias sobre grandes catástrofes e fim do mundo, que você entenderá os sonhos (ou melhor, pesadelos) que habitam grande parte do inconsciente coletivo de todo o planeta, neste exato momento. Seja um extraterrestre ou um grande meteoro, pouco importa, desde que a ameaça venha de algo do qual não possamos nos defender, seja por desconhecermos-lhe, ou a magnitude de sua força.
Na antiguidade eram totens. Recentemente pudemos ver no filme Avatar uma boa demonstração de uma Árvore sendo cultuada como Totem, e os rituais utilizados por um povo ‘pretensamente’ menos desenvolvido. Mas a crença que temos em alguns políticos, supostos ‘líderes’ e chefes no ambiente de trabalho não vão muito além da realidade, da mesma forma? Acha que não? Então quebre alguma regra que acha injusta, mas seja um tabu (algo que não pode ser contestado, mesmo que seja irracional) e veja o que acontece.
Mas estes pretensos donos do poder não se dão conta de que a intensidade da força para manter o tabu é diretamente proporcional à velocidade de degeneração de sua estrutura do poder, assim que o ‘medo’ for convertido em outras forças, e a melhor delas é a real consciência do objeto do medo.
Você tem medo de seu chefe ou de ficar desempregado? Então busque outro emprego em vez de obedecer cegamente alguém a quem não acredita, e ficar reclamando pelas costas o dia inteiro. Você tem medo de morrer? Ou seu medo é da vida? Garanto a você que é muito provável que você tenha medo é da própria vida, mas projetamos no medo de morrer grande parte de nossas dúvidas e superstições sobre o que é a vida, em vez de nos questionarmos se estamos vivendo como realmente acreditamos que é a melhor forma de se viver: fazendo todo o possível, como se não houvesse amanhã.
O ser humano não consegue encarar seus medos reais, infelizmente. Somos primitivos, e não gostamos de nos imaginar assim. Criamos medos para fugirmos de nós mesmos, a milênios. Freud mostrou há 100 anos o caso do menino Hanz e seu medo de cavalo. Escreveu praticamente um livro inteiro detalhando o caso, que continua atual. O medo de cavalo na realidade era criado sobre suas dúvidas de onde as crianças eram geradas, de onde surgiu o bebê (sua irmã mais nova), medo de ser preterido no amor de sua mãe,  os sentimentos ambíguos de amor, medo e raiva de seu pai, pouco presente... mas o pequeno Hanz não tinha discernimento suficiente para reflexionar sobre seus verdadeiros medos, e criou uma fobia de cavalos (em uma época em que não existiam carros nas ruas, apenas cavalos). Somos diferentes hoje? Não.
Continuamos a trazer medos da infância, temos pavores e terror de coisas que deveríamos enfrentar racionalmente, sem sentimentos. Em especial no ambiente de trabalho, eu, como especialista em RH vejo ainda muita utilização do medo como poder, e a principal causa disto (e não consequência) é a postura da grande maioria dos empregados (alguns até com alto grau intelectual) que se submetem, mesmo em uma economia de quase pleno emprego. Isto prova que não têm medo de ficarem desempregados, tampouco de ganhar menos. Simplesmente tem medo, e criam qualquer justificativa para isto, nenhuma plausível.
Vivemos em um país em que se administra mal o dinheiro público, mas as pessoas tem medo de procurar seus direitos e sair de sua zona de conforto. Vivemos em um lugar onde se vê o errado sendo feito mas nada fazemos para muda-lo. Vivemos em um mundo em que vemos as mazelas e problemas do mundo sendo escrachados na televisão da sala todos os dias, e ainda assim achamos que não fazemos parte disto, só das coisas boas. Vivemos em uma sociedade com medo; medo de crescer. Uma sociedade de bebezões. Bebezões que não querem crescer. Bebezões que não querem viver.
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