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sábado, 7 de junho de 2014

NEUROSE : no que as ARTES , as PIADAS e as IRONIAS nos ajudam contra ela? Saiba AGORA!



Chamar alguém de neurótico há muito virou uma ação pejorativa, da mesma forma com que muitos termos técnicos da área de psicologia vêm sendo usados indiscriminadamente pelo senso comum, no geral para desqualificar ou ofender alguém. Apesar de muito conhecido, o significado do termo neurótico é pouco conhecido pelas pessoas. Aliás, pouca gente se dá conta que todos somos neuróticos, alguns em maior outros em menor grau, mas absolutamente TODOS temos neuroses. É natural do ser humano, tanto quanto nascer com um apêndice ou uma amígdala: por mais que não queiramos ou não enxerguemos utilidade. Mas ela existe.
Neurose é uma espécie de dissociação psíquica: ela ocorre quando sua consciência repele alguma informação, em geral de cunho emocional ou ideológico muito intenso. Esta ideia ou este afeto são jogados pouco a pouco no ‘esquecimento’, e vão se afundando no inconsciente, lá tendo uma vida independente, podendo influenciar nosso comportamento sem serem notados.
Ficou fácil entender porque todos somos neuróticos? Então vejamos: toda criança, enquanto criança, tem um pouco de birra. Mesmo que seja só quando ainda é bebê, ela chora por querer alguma coisa (como o seio da mãe, por exemplo), que não pode ter a todo momento em que quer. Conforme ela vai crescendo, os pais desta criança a vão ‘educando’, deixando claro o que em seu comportamento, em sua fala, e em suas ações é aceitável, e o que não é. Muito cedo a criança percebe a extrema dependência que possui de seus pais, e por este motivo vai reprimindo a si própria (umas mais, outras menos) para, de certa forma, ‘agradá-los’ e assim não perder sua proteção e carinho.
Este processo é praticamente automático, e se não nos dermos conta, funciona desta mesma forma por toda uma vida. O problema é que os conteúdos originais de nossa mente (ainda inconsciente) são interligados. Quando começamos a separar uns dos outros, a privilegiar uns em detrimento dos outros, vamos criando uma hierarquização na consciência, e ao mesmo tempo conflitos entre estes conteúdos, originalmente de mesma importância. Daí nascem os principais conflitos consciente versus inconsciente. Quando a consciência é razoavelmente forte para reprimir qualquer menção aos conteúdos que ela não quer ver (reprimidos), mas estes insistem em se fazer notar pela consciência, seja através de atos falhos, conflitos internos, somáticos (doenças), tensões, etc., temos uma neurose. (A psicose, da qual falamos na semana passada, ocorre quando os conteúdos são tão fortes, ou a consciência tão fraca que o inconsciente consegue invadir a área da consciência).
O grande problema da neurose não é tê-la. Todos temos neuroses, porque fomos socializados, educados, e invariavelmente temos instintos e vontades que são reprimidas desde nossa infância até hoje. A questão é que quando estas vontades inconscientes são tão fortes, precisamos gastar enorme quantidade de energia psíquica para impedir que elas invadam a consciência.
Então o que fazer? Isto nos respondem Freud e Jung. Tomar consciência do conflito já é um primeiro grande passo neste sentido. Ao deixar este conteúdo negado fazer parte da consciência ele deixa de ter o grande poder de agir sobre seu comportamento sem que você saiba ou perceba. Jung comprovou diversas vezes até mesmo o desaparecimento de sintomas somáticos assim que a pessoa toma consciência dos conteúdos inconscientes reprimidos. Mas a coisa não é tão simples assim. A repressão da consciência é mantida por meio de barreiras, que podem ser desde o simples esquecimento, até racionalizações (já na fase adulta da pessoa). Quanto mais tempo, mais difícil é convencer a pessoa de seu conteúdo reprimido. O paciente geralmente se utilizará de diversos mecanismos de defesa, como projetar o mal em seu terapeuta ou outra pessoa que a queira ajudar, negar, culpar-se (falaremos em outra oportunidade destes mecanismos), mas o principal é muito difícil de atingir: que ela realmente perceba que nega em si própria alguma coisa que ficou para trás em sua história.
A neurose é necessária? Sim. Sem esta separação de conteúdos, reprimidos e os ‘desejáveis’ pela consciência, não teríamos consciência. Tudo seria inconsciente: agiríamos todos de acordo com a vontade de cada um, sem racionalidade, somente na base de emoções e desejos. Não haveria sociedade, educação, nada. Ou seja: ao mesmo tempo em que a consciência é uma conquista do homem moderno, também é um grande peso a se carregar.
Portanto o que se deseja não é não ter neurose, e sim que após razoavelmente educado e ‘socializado’, o indivíduo consiga tomar consciência do que reprime em si próprio, e saiba exprimi-lo de forma aceitável, sem prejudicar a si nem aos à sua volta, tanto quanto manter os progressos que conseguiu ao longo de seu desenvolvimento pessoal. É neste ponto que entram as Artes, as Piadas e as Ironias. Todas elas ajudam a trazer à consciência conteúdos latentes, que não podemos expressar diretamente (por convenções sociais, por educação, etc.) mas que sabemos serem verdadeiros. Se esquecermos que estes conteúdos verdadeiros existem, esqueceremos também parte de nossa condição humana... e esta parte de nossa constituição poderá se voltar contra nós quando menos esperarmos.
As Artes no geral são um grande ‘remédio para a alma’ neste sentido. Quantos Filmes, Peças de Teatro e livros você já viu e leu e que te tocaram profundamente? Quantos deles te fizeram reconhecer-se na imagem de algum personagem? Quantas vezes saiu de um teatro ou um cinema sentindo-se pensativo, parte de algo maior? Pois desde o Teatro Grego (talvez bem antes), o ser humano consegue trazer parte de seu inconsciente para a consciência desta forma. Sentado(a) na cadeira do cinema, a meia penumbra, sua consciência está relaxada, com as defesas diminuídas (não é à toa que o ambiente de um cinema é tão confortável quanto uma sala de um psicanalista...). Caídas as defesas, a mensagem de um filme bem produzido, com a sensibilidade do diretor, do autor da obra e dos atores, pode refletir um drama interno humano que você carrega em seu coração mas reprime desde sua tenra idade.
É por este motivo também que desde seu início a Psicanálise utiliza-se da Mitologia Grega para suas análises, e não só dela. Para que todos saibam, Freud em sua obra fala de piadas (chistes) e ditos populares, além da ironia, como formas claras de dizer o que realmente se sente, de uma forma socialmente aceita. Por esta razão as piadas em especial são tão populares, e beneficiam tanto a psique (mais do que a maior parte das pessoas acredita).
Desde cedo os principais autores da Psicanálise enfrentaram fortes críticas em suas obras, exatamente por falarem diretamente e sem meandros dos grandes dramas e problemas da alma humana. Por este motivo, cada vez mais se percebe que o uso da ironia e da comédia são formas de popularizar o contato crítico e saudável com conteúdos reprimidos no inconsciente. Tabus, convenções sociais retrógradas, críticas sociais e a governos, comportamentos desonestos, culturas atrasadas... perceba que é mais fácil aceitar uma crítica a si mesmo e à sociedade da qual faz parte quando é feita através de uma piada; assim como também é mais fácil identificar racismo e preconceito através delas.
Se temos piadas racistas e preconceituosas, não é porque necessariamente os comediantes o são, e sim porque há MUITO RACISMO e MUITO PRECONCEITO entre quem acha estas piadas engraçadas. Comediantes não fariam sucesso se não encontrassem eco às suas piadas no inconsciente de uma grande quantidade de pessoas.
Pense nisto e avalie os livros, os filmes, as piadas e as ironias que vê a cada dia. Encontrará muitas afirmações encobertas sendo ditas.Você não precisa concordar com estas afirmações (talvez elas não encontrem eco em seu coração, como piadas racistas e preconceituosas, por exemplo).  Talvez não seja um meio tão bom quanto a prática de sessões de psicanálise (alguns conteúdos são tão reprimidos que só uma intensa interação terapêutica pode fazer emergir do inconsciente), mas é um ótimo começo para se analisar o submundo de nossa sociedade pretensamente ‘evoluída’, assim como perceber nossos próprios preconceitos.
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