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sábado, 21 de junho de 2014

O que faz você infeliz? por Regina Herzog - psicanalista



Quem são os responsáveis pelo sofrimento dos tempos atuais? A pergunta norteou o café filosófico CPFL com a psicanalista e professora da UFRJ Regina Herzog sobre “A crise do mundo contemporâneo”. 

Mais do que a tecnologia, afirmou a especialista, é a mudança de paradigma do mundo contemporâneo que deve ser analisada. A grande marca dos tempos atuais é o dever de ser feliz, uma ordem expressa, segundo ela, em uma propaganda recente de supermercado, na qual o consumidor é “intimado” não só a ser feliz, mas a buscar a própria felicidade. A música dizia: “o que faz você feliz? Você feliz o que que faz? Você faz o que te faz feliz? O que faz você feliz você que faz”. “O slogan da propaganda era mostrar que ali era um lugar de gente feliz. a menina canta maravilhosamente. A música, que é uma simpatia, ensina: a felicidade depende única e exclusivamente de você. E você tem que saber qual é a felicidade que vai te fazer feliz.” E completa: “e quantos não são aqueles que tomaram algo para reduzir o sofrimento? Quando surgiu o prozac, era a pílula da felicidade. E muita gente ficava muito feliz com o projac. Esse imperativo da felicidade vem da cultura do hedonismo, segundo o qual o único propósito da vida é a busca incessante de prazer”.
Segundo a psicanalista, essa busca pela felicidade não é nova. Antigamente, no entanto, havia um caminho e um conjunto de regras para chegar até a porta do paraíso. “Não é o que acontece agora. Hoje não é só correr atrás, mas saber do que se corre atrás. E não é o outro que vai te proporcionar a felicidade. É você. Nessa busca, muitas vezes, o outro atrapalha. E vira um inimigo.”
Esse paradigma, segundo o qual não é possível contar com ninguém, “se a gente fracassa na tentativa de ser feliz a gente se sente incompetente, desvalorizado, desqualificado, perdedor”. “Nossa própria imagem fica ferida, e sabemos como nos esforçamos para parecer e aparecer bem sucedido.”
Na modernidade, lembrou a psicanalista, os homens acreditavam no progresso e na evolução humana. Era o projeto do iluminismo. E a sociedade passou a ser ordenada a partir de grandes instituições, como as universidades, as escolas, as prisões, os asilos. “Ocorre que, no final do século XIX, começa a fazer água esse projeto. E começa a fazer água a partir de três pensadores considerados mestres da dúvida: Marx, Nietzsche e Freud”. Este último, lembrou a especialista, mostra que “o homem não estava com essa bola toda” a partir de três feridas narcísicas: quando Galileu Galilei mostrou que a terra não era o centro do Universo; quando Charles Darwin mostrou que o homem não era o centro da Terra; e quando o homem descobriu que não era soberano em sua própria morada, a consciência. “Freud mostrou que este homem possuía forças desconhecidas, e inconscientes, que abalavam essa presunção de ser soberano em relação a si próprio.”
Para Herzog, se antes havia um conflito entre desejo e moral, e o sujeito se sentia culpa por transgredir (ou pensar em transgredir) algo que regulava o convívio social – e o protegia – hoje o individualismo exacerbado solapou essa ideia. “Hoje ele não é um sujeito da culpa, mas o sujeito narcísico, um sujeito que, para se constituir, passa por um investimento nele próprio”.
“Hoje não existe um projeto, uma ideia de futuro ou de passado. É preciso viver o aqui e o agora. É o tempo do instantâneo. Interessa como eu estou hoje, aqui e agora. Pouco importa o meu passado. Interessa a minha imagem.” E completou: “a máxima hoje é ‘é proibido proibir’. Eu posso fazer qualquer coisa desde que eu seja competente para fazer. Mas tenho tantas escolhas que não consigo decidir o quero. Sou tão pleno de possibilidades que fico esvaziado”. E citou o filósofo polonês Zygmunt Bauman para ilustrar a ideia: “antes você tinha normas. Não tinha liberdade, mas tinha garantias. Hoje, segundo Bauman, há liberdade, mas não há garantias”.
Nesse cenário, pânico, fobia, compulsão e depressão tornam-se consequências desses imperativos. “Nos quadros clínicos da contemporaneidade o que está presente é a vergonha por não ter alcançado o que deveria ser alcançado. o sujeito deprimido não sofre pelo que ele fez ou porque causou sofrimentos. Sofre por algo que ele não fez. Ele não chegou ali. Ele sofre porque se sente um loser, um incapaz.”

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