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sábado, 19 de julho de 2014

FANTASIAS : como fugimos da angústia da realidade e destruímos relacionamentos e nossa própria saúde

Geralmente ligamos a palavra 'Fantasia' a sonhos, desejos e festas... mas você já parou para pensar porque nossa mente possui tanta capacidade de sonhar, fantasiar, imaginar? A Fantasia, em si, é uma espécie de proteção de sua mente, quando ela não é capaz de suportar a angústia da realidade, ou a ambivalência dos pensamentos (geralmente desejos versus deveres), proporcionando uma fuga ou, na melhor das hipóteses, uma meia verdade... para que você consiga passar um tempo até que a realidade melhore ou você tenha mais forças de suportar a verdade... duro demais o que falei? E olha que eu nem comecei...

Vou falar da Fantasia na Psicanálise sob a visão dos meus três autores preferidos na área... Freud, Melanie Klein e Jung. 
Freud descobriu no início de seus estudos do inconsciente que pensamentos podiam se transformar em sintomas, e vice-versa... acho que isto não é novidade para quem leu meus posts anteriores... mas em um caso específico (dos vários posteriores que ajudou-o a comprovar sua teoria), percebeu que estas idéias que se transformavam em sintomas físicos não tinham quase nada a ver com a realidade... eram fantasias, suposições falsas, sendo que na quase totalidade o paciente sequer tinha consciência destas falsas suposições (eram inconscientes, idéias que estavam no mais profundo de sua mente por serem inaceitáveis um demasiadamente angustiantes na consciência). Você poderá ler mais deste caso no livro "Estudos da Histeria" (volume II das Obras Completas de Freud no Brasil - Editora Imago). Trata-se do caso de Fräulein Elizabeth von R., que tinha uma dor nas pernas sem explicação neurológica nenhuma. Depois de meses de análise, Freud revelou-a que seu problema físico decorria de uma espécie de autoflagelação, pelo amor inconsciente que nutria pelo seu cunhado... claro que depois desta revelação houve a negação, etapa natural (e motivo pelo qual qualquer psicanalista minimamente treinado demorará razoável tempo até ter certeza de que você é capaz de suportar alguma verdade detectada...) mas logo as dores físicas desapareceram, na mesma proporção em que os pensamentos dolorosos e a angústia tomou parte da consciência de sua paciente. A partir daí, Freud iniciou outra etapa da terapia, para diminuir a angústia que a Srta Fräulein sentia por amar seu cunhado (um amor proibido), e após longos meses foi capaz de consolar-se em dois fortes argumentos que o mestre da Psicanálise apresentou: primeiro de que não somos responsáveis pelos nossos sentimentos (não escolhemos quem amamos) e segundo, que o fato dela ter adoecido por reprimir tal sentimento era a grande prova de seu forte caráter moral, visto que de maneira alguma desejava destruir a família de sua irmã em troca de seu próprio prazer...
Ter revelado seus mais íntimos desejos e pensamentos (em geral proibidos, "pecaminosos", sujos... e por aí vai) é o motivo de muita gente odiar a psicanálise (e os psicanalistas, claro....). É querer matar o mensageiro, que aliás quer te ajudar. Mas isto se deve ao fato de nenhum de nós (Freud logo cedo descobriu) está preparado a viver totalmente na verdade, 100% do tempo. Não acredita nisto? Pare e pense em toda a estrutura de 'sociedade' que está ao seu redor, neste exato momento... acha ela estável e segura? Você realmente acredita que há 'instituições' que irão proteger você e a sua família, que há um 'governo' pensando no futuro de todo um 'povo' ? A maior parte das palavras destas últimas 2 frases são abstrações, fantasias que criamos para nos sentirmos mais seguros, para não pensarmos que na realidade vivemos numa grande horda, quase totalmente sem rumo, e que a qualquer momento tudo pode mudar (eis aí uma das maiores angústias do ser humano...). 
Queremos sempre acreditar que sabemos como será nosso amanhã, que ele será igual ou melhor ao hoje... nem mesmo queremos imaginar que podemos não acordar amanhã. Mas em maior ou menor grau esta angústia está em você, no seu inconsciente... e o grau de força que ela tem fará você fazer coisas de forma inconsciente para diminuir tal ansiedade, sem nem mesmo você perceber...
Vou dar outro exemplo. O escritor Martin Amis, ao escrever sua autobiografia diz que em 1977 uma ex-amante lhe procurou e informou que tinham uma filha. Ela mostrou-lhe a foto da menina, a qual ele não quis guardar. Chegou a encontrar a filha algum tempo depois, mas não tiveram uma convivência intensa. Anos depois, ele levou um grande susto quando ao lançar seu mais novo romance "Success", em 1978, uma amiga que escreveu a resenha de sua obra descreveu diversos trechos de seus últimos livros onde sempre apareciam filhas perdidas ou errantes e pais supostos e fugidos, a cada livro que lançou desde 1977... e ele não havia percebido.
Amis percebeu então que, da mesma forma que os romances que escrevia vinham do fundo de sua mente (inconsciente), seus personagens, suas histórias, assim como toda a angústia pelo não convívio com a filha recém descoberta também afloravam nos seus textos. Sua angústia se expressava através de seus livros, mesmo sem que ele percebesse. Uma parte dele mesmo estava em suas obras, e ele não sabia até então. Eis porque a psicanálise também analisa os autores através de suas obras... não é tão difícil quanto se pensa... Amis havia criado uma ilusão de vida, e sua vida verdadeira sua consciência achava que era fantasia (seus livros), e era exatamente o contrário. E todos nós fazemos isto diariamente, em maior ou menor grau.
Fantasia não é necessariamente algo bom, apesar de imaginarmos, pelo senso comum, que o é. Fantasia é algo que não corresponde à realidade, porque não queremos a realidade. Quando é algo bom, podemos atribuir a nós mesmos... quando é ruim, em geral atribuímos aos outros. Pegue o trânsito: temos o que chamamos identificação projetiva da fantasia. Imagine um motorista que ignora a placa de 'dê a preferência' e quase provoca um acidente... após frear bruscamente, começa a xingar o motorista do carro no qual quase bateu, como se a culpa fosse dele... quantas vezes você viu algo parecido no trânsito? E na vida real? Por dentro, o motorista que não respeitou a placa sabe que estava errado, mas seu ego não suporta admitir isto... é mais fácil projetar a culpa em outro... então sua consciência cria uma ilusão, uma fantasia de que o outro é culpado. Se você for conversar com este motorista, verá que ele esta provavelmente tão nervoso como se o outro fosse realmente o culpado, mas se esperar ele se acalmar e conseguir ter um diálogo racional, sem emoções, verá que nenhum de seus argumentos tem fundamento... e que provavelmente ele começará a usar termos linguísticos imprecisos e dúbios para fugir de sua própria mentira (na qual ele mesmo quer acreditar, mas no fundo sabe que é uma grande mentira). E isto, caro amigo(a), ocorre diariamente, não apenas no trânsito, mas em qualquer relação entre pessoas... o ser humano tem uma tendência a não tolerar a verdade quando não é favorecido por ela, acostume-se a isto...
Melanie Klein, outra grande mestre da psicanálise, lia "A interpretação dos sonhos", quando percebeu que o comportamento de seus filhos pequenos eram mais complexos do que Freud achava na sua obra. Anos depois, Klein lançava "O Desenvolvimento da Criança", após anos analisando o comportamento, em especial, de seus filhos. Conhecedora da obra de Freud, Klein resolveu criar seus filhos sem qualquer repressão, já que até então acreditava-se que era a repressão criada pelos pais as grandes responsáveis pelas futuras neuroses dos filhos e filhas já adultos... e então começou a notar que a capacidade de criar 'fantasias' tem uma parte inata, ou seja, que nasce com todos nós, as 'fantasias primitivas'. Falei um pouco em outro texto anterior, mas vou me aprofundar um pouco mais agora: o bebê, ao nascer, possui uma enormidade de angústias, e pouca capacidade de interpretar a realidade como realmente ela é. Diga-se de passagem, o bebê humano é, de todos os mamíferos e, comparativamente à quase totalidade de todos os outros animais, aquele que passa mais tempo dependente dos pais pelo alto grau de fragilidade, proporcionalmente ao seu tempo de vida. Então, considere que também somos os que passamos mais tempo alheios a um maior conhecimento da realidade... 
Então, desde cedo, criamos fantasias para entender o mundo. Falei em outro post anterior que a ausência da mãe (algo ruim desde que se corta o cordão umbilical) é sentida pela criança como se fosse um outro ser, a tal 'mãe má' (daí surgem fantasias com bruxas, monstros, etc... perceba que eles sempre surgem quando os pais não estão no quarto da criança...). Mesmo depois de crescida, a criança guarda esta fantasias no seu inconsciente, e mesmo nós adultos temos dentro de nós estas fantasias guardadas, que apesar de não acreditarmos, manifestam-se a todo momento (gosta de filmes de terror? então...)
Klein percebeu algo importante com relação á teoria de Freud: quando seus filhos estavam na fase de fazer várias perguntas, sobre tudo, mesmo que ela se esforçasse para responder e explicar tudo o que lhe era perguntado, notava um certo desapontamento, tristeza, quase que uma depressão, até que ela percebesse a verdadeira pergunta que a criança queria fazer... então quando ela percebia e respondia algo que a criança não perguntou mas intuitivamente percebeu que era o que ela queria saber, então tudo voltava ao normal, e a criança se animava novamente, e ficava um certo tempo sem fazer perguntas... Isto se deu em especial em questões que em geral são espinhosas para os pais e dúvidas comuns nas crianças, como: "como nascem os bebês..." e coisas do gênero. No fundo, a criança já estava angustiada pelo complexo de Édipo (veja nosso texto sobre ele, aqui no site - em Conceitos de Psicanálise), e não sabendo lidar com estes sentimentos (que todos, REPITO: TODOS nós passamos) fantasiava dúvidas com outras coisas, e perguntava sobre tudo, fugindo do que realmente lhe afligia... Quando Klein percebia isto em seus filhos e revelava a resposta da pergunta que eles não conseguiam fazer (de tão angustiante), voltavam a ficar menos angustiados e livres para brincar, crescer, e aprender novas coisas. Caso não fizesse isto, a fantasia poderia (e pode) tomar grandes proporções e muito da energia da criança será gasta fugindo de coisas que para ela são assustadoras, mas na realidade não são.
Nós adultos somos da mesma forma. Vamos fazer um salto grande (mas não tão grande assim, você perceberá) entre o comportamento desta criança e de um casal (ambiente em que dois adultos tendem a repetir comportamentos infantis, quando ambos ou um deles possui pouca maturidade). 
A tal história da 'metade da laranja', 'tampa da panela', 'pessoa que te completa', pode esconder na realidade uma 'involução' intelectual, uma regressão do desenvolvimento de sua personalidade. Com o tempo quase todas as pessoas tendem a 'fantasiar' que já sabem como seu parceiro pensa. Está aí o principal problema causador de brigas de casais e separações, e onde qualquer terapeuta de casais sabe que deve atuar primeiro. Em um caso real de terapia de casal, a esposa reclamou na primeira sessão que estava prestes a se separar do marido, pois ele era muito controlador. Deu como exemplo que naquele momento queria comprar um par de sandálias muito caras, mas ele não aprovaria. Detalhe que todo terapeuta deve notar: a flexão verbal "aprovaria". Ela não perguntou ao marido, simplesmente achava que ele não iria aprovar, sem perguntar. Aprofundando a análise, percebe-se que todos os demais argumentos da esposa vão neste sentido: em todas as ocasiões em que culpava o marido de ser controlador e não deixá-la fazer nada, ela não havia perguntado ou dito de forma clara ao marido o que queria. Ela simplesmente, depois de anos de casamento, fantasiava que saberia tudo o que seu marido pensava, e que não precisava perguntar, pois já saberia a resposta... comportamento muito comum em casamentos, e também na vida fora deles. Depois de muitas sessões de terapia, incluindo o marido, ficou claro para a esposa que o problema era ela e sua percepção distorcida da realidade. E que a imagem que tinha de seu marido foi de tal forma moldada por uma fantasia na mente dela, e ganhou tal proporção, que não apenas ele era totalmente diferente do 'marido da fantasia dela', mas também que seu marido real era muito 'melhor' do que a imagem que ela fazia dele. 
Descobriu então porque é comum, em especial as mulheres, quererem mudar o marido depois de casarem com ele? E porque muitos homens, depois de casarem, partem em busca de casos extra-conjugais, quando percebem que a 'fantasia' que faziam da vida a dois, e a sua esposa (real, não a fantasia que fazia dela, enquanto eram noivos) são bem diferentes?
Aí entra o terapeuta para esclarecer... o que é melhor, mais adulto, mais racional? Compreender e admitir que 'fantasiamos demais' e convivermos com a realidade, adaptando-se a ela? Ou tentar aumentar a fantasia ou buscar outra? No caso acima, os homens buscam amantes em geral porque querem outra 'fantasia', pois não suportam admitir que a fantasia que criou originalmente acabou (sim, o casamento para o homem, inconscientemente, é interpretada como uma prisão.... falarei disto em outro texto, mais à frente...) e as mulheres em geral não largam a ilusão da imagem do marido que têm em sua mente, que quase sempre é diferente do marido real... e alimentam esta fantasia até que a ilusão é gigantesca, e o marido real, um ser insignificante para elas...
Voltando às fantasias primitivas, Freud e Klein nos mostraram, em suas obras, o quanto comportamentos inatos nos bebês, ao serem exteriorizados, podem ser determinantes no comportamento dos adultos. O 'mamar', por exemplo, está de tal forma ligado a uma das principais fantasias primitivas do ser humano, que ao longo da vida, a experiência de mamar no seio da mãe (se foi boa, ruim, indiferente, prazerosa, amedrontadora...) irá determinar tendências como alcoolismo, impotência sexual, opção sexual, obesidade ligada à transtornos alimentares, e assim vai. Infelizmente, como já disse em outro post, pelo fato deste site ser aberto a todos os públicos, não posso me aprofundar em temas sexuais, mas posso esclarecer que muitas fantasias primitivas estão ligadas a comportamentos que achamos extremamente puros na consciência, mas tem raízes inconscientes em coisas que achamos terríveis ou depravadas...
Vou concluir falando de Jung e sua percepção da fantasia. Até agora falei que a Fantasia é algo terrível, pois faz com que fujamos da realidade como crianças com medo da verdade. E realmente é assim. Mas é necessário dizer que o inconsciente, ao mesmo tempo que é o grande controlador oculto de nosso comportamento, também é fonte de quase toda a energia e criatividade que o ser humano é capaz de ter. 
Freud já dizia que nenhum ser humano é capaz de suportar totalmente e integralmente a verdade. Em algum momento iremos criar ilusões, fantasias, para nos convencermos de uma segurança, proteção, controle, que na realidade não existem. Queremos fugir da angústia da incerteza, da indecisão, da falta de controle. Já vimos o quanto estas fantasias, estas fugas da verdade podem prejudicar o desenvolvimento de nossa personalidade, nossa forma de lidar com o mundo, nosso próprio progresso pessoal. Mas para Jung, as Fantasias originais do Inconsciente (não aquelas que criamos para fugir à verdade, mas sim aquela forma de ver o mundo original, que só você é capaz de ter, tendo consciência de que não é a realidade) são capazes de preencher o vazio existencial, esta angústia natural do ser humano quanto à sua própria existência. Claro que não estamos falando aqui de um motorista imprudente que acha que o culpado é o outro... estou falando aqui das artes, da criatividade, da religiosidade... de tudo que o ser humano é capaz de criar e das diversas formas de ver o mundo que não são fugas da realidade, são formas de ver o mundo. Não deixam de ser fantasias, mas não são fantasias totalmente inconscientes (aquelas que alteram seu comportamento sem você perceber). Estas fantasias estão ligadas a você mesmo e ao mundo de uma forma geral (e não a brigas e discussões entre pessoas). Estas são positivas, são capazes de lhe trazer energia e fortalecer qualquer pessoa nos piores momentos da vida. Até mesmo Freud não conseguiu fugir de suas fantasias, por que você teria que fugir delas? Apenas saiba separar muito bem o que é realidade e o que é Fantasia... até a próxima!
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