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sábado, 5 de julho de 2014

PARANÓIA: como identificar e lidar com um(a) PARANÓICO(A) no TRABALHO e no DIA A DIA

Já parou para pensar por que argentinos e brasileiros se 'gostam' tanto? Então acho melhor ler este texto e tirar suas conclusões...
Ao contrário do que muitos pensam, não é apenas o medo e a mania de perseguição que demarcam a paranóia. Aliás, todos passamos (e podemos voltar a passar) por 'posições' paranóicas ao longo da vida, e o que caracteriza a doença é um determinado nível que compromete seriamente o pensamento realista e racional, tornando não apenas a pessoa infantilizada nas suas decisões e ações, como pode até mesmo levá-la a dois extremos: ao da ilusão de total onipotência ou a mais profunda culpa (com riscos sérios de suicídio). Mas assim como no post que publiquei sobre a psicopatia, procure não ter 'pena' ou  qualquer outro sentimento de 'compaixão' por este tipo de doente. Se neste minuto ele acredita ser alguém extremamente indefeso e sente-se protegido e amado por você, no minuto seguinte pode projetar todo seu ódio, raiva e onipotência sem qualquer chance de defesa. Neste quesito, o grande diferencial do paranóico para o psicopata é que o primeiro é de tal forma envolvido por um mundo irreal, criado por ele (como uma defesa), e de tal forma possui um ego infantil, fragilizado, incapaz de raciocinar como as coisas realmente são e acontecem; ao contrário do psicopata, que o sabe muito bem, tira proveito de suas falsas demonstrações de fragilidade e agride por mero prazer.
A paranóia leva o indivíduo a projetar em outras pessoas à sua volta todo sentimento (em especial os negativos, como fragilidade, vulnerabilidade, incapacidade, incompetência) que não suporta ver e sentir em si mesmo. Isto ocorre porque ela possui (ou está, em determinado momento da vida) uma tal fragilidade egóica, de forma que ela não suporta sua própria autocrítica, a verdade, a realidade dos fatos, enfim... ela gostaria (inconscientemente) de viver em outro mundo, mais amoroso, acolhedor, em que fosse outra pessoa que não a que ela é, e como a realidade não lhe permite isto, projeta (é inconsciente) em quem estiver próximo. 
Para começar este post, um pouco denso, e explicar as principais facetas da paranóia, vamos começar com um velho conto judaico (cultura que sempre trouxe grandes contribuições à psicanálise):

Um certo senhor Cohen foi o único sobrevivente de um naufrágio. Ele conseguiu sobreviver por anos em uma ilha deserta, até que certo dia apareceu uma embarcação no horizonte, e o homem fez sinais freneticamente. Os tripulantes vêm resgatá-lo, mas, antes de sair da ilha, ele quer mostrar com grande orgulho as suas proezas durante o tempo em que sobreviveu sozinho na ilha.
-Olhem ali - diz ele, apontando um pequeno pomar - achei sementes e plantei árvores frutíferas. E lá - continua - vejam, construí uma casa com areia, barro e madeira!
Os salvadores ficaram muito bem impressionados.
-E vejam mais adiante, construí uma sinagoga - afirma ele, apontando uma construção pequena - e lá, olhem, só, construí outra sinagoga!
Os salvadores, compreensivelmente, ficam perplexos:
-Por que, Sr. Cohen, o senhor precisava de duas sinagogas se estava sozinho na ilha?
O Sr. Cohen faz um olhar surpreso e diz com ar de escárnio, apontando para a sinagoga mais distante:
-Nunca vou àquela lá!

Todos projetamos coisas que não gostamos em nós mesmos, nossos defeitos, enfim... precisamos de algo ou alguém para assumir a culpa pela nossa angústia. O Sr. Cohen acabou representando, através do conhecido toque de humor judaico, esta necessidade que acabamos projetando no mundo exterior à nossa mente, causa das divisões que criamos (e que não existem per si). Se ele não tinha quem criticar ou odiar, acabou criando quem (ou o quê), senão seu ódio, raiva e angústia provavelmente se voltariam para sua própria pessoa, naquela ilha deserta.
O primeiro ponto a dizer é que as pessoas que recebem esta projeção não são fixas, necessariamente. Se você já teve a oportunidade (ou, diria eu, o azar) de trabalhar ao lado de uma pessoa doente como esta, talvez interprete que ela seja uma pessoa falsa. Esta ás vezes é minha primeira impressão, como especialista de RH que sou. Mas sempre dou oportunidade mais uma análise a mais longo prazo, que acaba confirmando as suspeitas que não é isto que ocorre. A pessoa paranóica não tem a mínima consciência de que foge de si própria, de que é a única causadora de sua própria lama movediça, e que a cada passo que dá agredindo, acusando, culpando quem está à sua volta, mais afunda em seu próprio lixo mental. 
Freud desvendou muitos segredos da Paranóia principalmente através do Caso Schreber (Volume XII das Obras Completas de Freud - Editora Imago). Resumidamente, trata-se de um caso raro em que um juiz, o Sr. Schreber, pessoa de alta capacidade intelectual, escreve um livro sobre suas fantasias paranóicas, permitindo desta forma um aprofundamento das pesquisas desta doença. A raridade deste caso deve-se ao fato do Sr. Schreber, apesar de possuir alto grau de paranóia, conseguia conviver pacificamente e exercer exemplarmente sua profissão de juiz, sem deixar-se afetar por sua doença mental. Na minha opinião e experiência de casos que conheço, acredito que se deve, dentre outros fatores, ao alto grau intelectual do mesmo, somado a um também alto grau de auto-percepção e sensibilidade pessoal. 
Outra grande autora da questão é a autora Melanie Klein. Ela produziu uma teoria que até hoje é tida como uma das principais sobre a paranóia. Resumidamente (peço licença e desculpas aos especialistas pela minha definição resumidíssima), Klein definiu que na tenra infância, em especial no período pré verbal (antes de começarmos a falar, em especial do 0 aos 2 a 3 anos de idade), temos uma percepção muito 'primitiva' do mundo. É como se repetíssemos a evolução de nossa espécie, durante nosso crescimento e desenvolvimento individual. Durante esta fase, a criança se apega grandemente com aquilo que a acolhe, protege, aquece, alimenta... (saiba que estamos falando em especial da mãe, mas não apenas dela). Afinal, é um ser totalmente desprotegido e dependente. Mas, este ser, que não possui mais a proteção integral do útero materno, passa a ter que lidar com algo totalmente novo: o vazio da ausência da mãe, falta de proteção, presença de frio, barulho, movimentos que não consegue prever, luzes, etc.. Em especial a ausência da mãe, antes totalmente ligada a ela em cem por cento do tempo.
Nossa mente infantil não sabe até este momento o que é ausência, por isso cria um outro ser para caracterizá-la: é o ser mal. Melanie chama de 'mãe má', mas vou evitar este termo, pois não se trata da mãe, nem sequer de uma pessoa: é o vazio da mãe, a ausência dela que é esta 'mãe má'... e como teria que explicar mais profundamente o que é isto (deixarei para os próximos posts) vou chamar apenas de vazio. 
Lembra-se que falei que repetimos o desenvolvimento do ser humano no nosso próprio desenvolvimento? Pois é: o ser humano demorou séculos para descobrir o número zero (ausência de algo). Foi descoberto pelos hindus, muito depois de todos os outros números positivos. Para o ser humano descobrir a ausência de algo, é necessário certo grau de abstração que a criança (e as pessoas infantilizadas) não possuem. Por isto personificar o vazio como um ser mal... 
A falta da mãe traz o tal vazio, o mal.... e a presença dela, o bem... esta divisão dentro da pequena mente infantil criará marcas para toda sua vida. Com o tempo, a criança passará por uma 'posição' depressiva (quando perceber que o mal não existe, que na realidade é a mãe que se afastou... e fica nesta posição 'depressiva' porque percebe que ela não controla a presença-ausência da mãe, o ser que tanto deseja. Esta posição depressiva é que trará o início do desenvolvimento da percepção da realidade como ela é, única forma de evoluirmos para a fase adulta, mais realista, e de, superada esta 'depressão', que não passa de uma fase de tomada de consciência de nossa eterna fragilidade frente à realidade do mundo e da vida, permitirá que em vez de gastarmos energia fugirmos de nós mesmos, de 'seres' maus e bons que nos protegem ou nos fazem mal, possamos utilizar nossa própria 'criatividade' em prol de nosso crescimento individual, psicológico, profissional e da sociedade em que vivemos.
O que ocorre é que o indivíduo paranóico, ou por uma fragilidade / problemas ao ultrapassar esta fase 'depressiva' da infância, ou então porque ao longo da vida adulta sofreu duros golpes de azar ou de infelicidades, regride ou permanece na posição paranóica. Muito justo o termo 'posição', pois ao contrário do que Freud imaginava, Klein bem definiu que podemos a qualquer momento vivermos um momento 'paranóico', em que, para nos defendermos da realidade à nossa volta, regredimos para um mundo 'irreal' de nossa própria mente, em que controlamos onde estão as coisas 'más' e as coisas 'boas'. Voltar à realidade, neste caso, seria sofrer uma angústia que a pessoa não suportaria neste momento.
O segundo ponto a se explicar, agora que já definimos resumidamente a teoria, é que o paranóico não é um indivíduo 'bonzinho' e que precisa de ajuda. Aliás, evite este pensamento com qualquer tipo de doença mental. Esta pessoa precisa de ajuda. Imagine-a como uma criança no corpo de um adulto, dirigindo um caminhão a alta velocidade. Não é apenas ela que pode se dar mal. Um adulto paranóico em um setor de uma empresa pode não apenas criar muita confusão, prejudicar pessoas boas e trazer grandes prejuízos ao trabalho coletivo (além de prejudicar a si próprio(a)). Também estará aprofundando-se na própria doença (no próprio mundo irreal que criou, sua areia movediça que cobrirá certamente seu nariz), e poderá contagiar outras pessoas mais suscetíveis, algo que é muito comum na paranóia.
Se não ficou claro, vamos ao terceiro ponto: não é que a paranóia é contagiosa... eu diria que nós, seres humanos (uns mais outros menos) somos totalmente suscetíveis a sermos contagiada por pensamentos paranóicos. Um primeiro exemplo que dei é sobre a eterna rivalidade entre brasileiros e argentinos. Na realidade, um projeta no outro suas próprias inferioridades, que não gostam de ver em si próprios. Se você não acredita que isto seja sintoma de paranóia coletiva (não acho isto saudável, apesar de quase todas as pessoas tolerarem este tipo de brincadeira entre povos que tem muito a colaborar e aprender entre si), saiba que o principal indicativo de paranóia é que o paranóico, ao invés de distanciar-se das pessoas (ou lugares) que tanto critica, que teme, que agride... ele faz de tudo para sempre lembrar dos mesmos, aproximar-se deles, estar próximo daquilo que tanto fala 'não gostar'. Homofobia, racismo, preconceito, todos estão ligados a esta característica paranóica: estão sempre muito próximos daquilo que tanto criticam. O homofóbico o é porque inconscientemente possui traços homossexuais (isto é comprovado pela teoria psicanalítica). O racista sabe internamente que é igual àquele que critica, e o faz por querer negar a própria característica. 
Esta semana (parece coincidência, mas chamaria sincronicidade - todo tema que escolho para uma semana faz com que eu presencie durante o mesmo período algum fato marcante para mim, sobre o que irei escrever) presenciei claras demonstrações de paranóia em uma pessoa, da qual conheço o histórico pessoal de problemas familiares. Este caso me deixou claro alguns pontos que, conhecendo em teoria, agora estão firmes em meu pensamento e vos passo: o paranóico é capaz de conquistar sua compaixão e pena, e cinco minutos depois estar falando mal de você nas suas costas. Não pense que é falsidade (se for paranóia): o indivíduo é de tal forma fragilizado egoicamente, e infantil, que projeta culpas, medos, vergonhas, incapacidades, fragilidades, depressão, em todos à sua volta, e não é porque em um minuto ele está chorando na sua frente que não culpará você de todos os problemas dele(a) alguns instantes depois. Fato é que esta pessoa simplesmente NÃO CONSEGUE VIVER com sua própria vida. É insuportável para ela. Seja porque viveu sérios problemas reais (e regrediu para uma posição 'paranóica') ou porque nunca conseguiu evoluir firmemente da fase 'depressiva' infantil (é uma criança eterna, uma criança birrenta, infantil, e que nenhuma palmada - da vida - irá consertar, enquanto não fizer um sério tratamento psicológico). 
Outra coisa que me chamou a atenção nesta pessoa, e que é comum em paranóicos, é a constante intromissão na vida alheia. Pessoas intrometidas são potenciais paranóicos. E os paranóicos, em geral, são intrometidos, além de fantasiar e criar diversas mentiras sobre a vida das demais pessoas. Voyerismo, por exemplo, é típico de paranóicos. Pessoas fofoqueiras, também. Estão projetando sua sujeira nos outros, principalmente através de mentiras. Então, se você for pego de surpresa, em especial no trabalho, por aquela pessoa que insiste em opinar e falar de sua vida sem nem mesmo te conhecer direito, aconselho distanciar-se, e evitar qualquer aproximação e conversas sobre sua vida pessoal com este tipo de gente. Se houver como aconselhar a pessoa (digo por experiência própria que a chance de conseguir sucesso e a pessoa iniciar um tratamento, nestes casos, é ínfima, e grande a possibilidade de ela aumentar as projeções sobre você) tente, se achar conveniente. Aconselho, entretanto, distância. Mas tenho algo mais a falar sobre isto, quando ocorre no ambiente de trabalho:
Vou deixar de lado o especialista da área de psicologia, e vou falar como especialista de RH, e profissional que já trabalhou em diversas instituições públicas. Talvez soe como apelo (talvez o seja), mas acho de extrema importância o que vou dizer. Chefes, líderes, diretores, responsáveis de setores, empresas, instituições públicas, e todo aquele que tem poder sobre algum funcionário: VOCÊ É RESPONSÁVEL POR ALIMENTAR A DOENÇA MENTAL de pessoas PARANÓICAS, causando QUEDA DA QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO e PREJUDICANDO O CLIMA ORGANIZACIONAL. Nas piores instituições que conheço pessoalmente, e algumas das quais já trabalhei, confirmo que é a OMISSÃO frente a comportamentos de pessoas doentes mentalmente que acabam gerando ambientes de trabalho com grande quantidade de fofocas, intrigas, picuinhas, brigas, mentiras, invasões de privacidade e comprometimento do trabalho dos funcionários que são sérios e profissionais (e que geralmente saem deste tipo de lugar para trabalhar em postos de trabalho com melhor qualidade de vida).
Estes comportamentos que citei estão em grande parte ligados a pessoas que sofrem de paranóia (e que não é pouca gente). Existem muitas pessoas que ou são ou estão nesta 'posição paranóica' por graves problemas que estão sofrendo ou porque nunca evoluíram de um estado mental infantil. Cuidam da vida alheia no local de trabalho (em vez de olhar sua pilha de trabalho em sua própria mesa), criticam os outros e á própria instituição na qual trabalham (em vez de trabalharem para melhorá-la, ou olhar suas próprias atitudes), enfim, pessoas que mais prejudicam a empresa e o mundo do que ajudam. Pessoas que não fazem falta. Pessoas que DEVEM SER TRATADAS, e, se não tiver resultado, DEMITIDAS-EXONERADAS! Estou sendo pragmático, pois assim deve ser um profissional sério de R.H. Conheço sim casos de setores de organizações e empresas que estão mortos (com relação à qualidade de vida), por conta da omissão dos chefes frente a este tipo de doente mental. Os prejuízos na vida de gente honesta e trabalhadora que este doente pode causar, em uma empresa, pode causar angústia e sofrimento maior do que ela sofre pela infantilidade. 
Para concluir, algumas pessoas vão dizer que devemos ter compreensão, quando os paranóicos tem um histórico de vida conturbado, com histórias tristes e dolorosas em seu passado. Digo com toda propriedade e seriedade de um profissional da área de RH e de Psicologia: o que este tipo de DOENTE MENTAL precisa é de tratamento, não de pena. Você acredita que alguém que foi roubado ganhe carta branca para te roubar? Não, é claro. Então porque você, pessoa sadia, consciente e social-profissionalmente participativo é obrigado a tolerar ser tratado mal, ter sua intimidade invadida e ter mentiras propagadas sobre sua pessoa? Não deve. Este é o principal objetivo deste post: ao mesmo tempo que queria alertar sobre o que é um paranóico e como ele age, peço que você sempre esteja preparado para se proteger de ataques de pessoas assim, em especial no ambiente de trabalho. Paranóicos são doentes que podem te prejudicar tanto quanto um psicopata o pode, e o pior é que os primeiros nem sequer tem consciência total do que estão fazendo. Doentes tem que se tratar, e não é no ambiente sadio de trabalho que isto deve ocorrer. Até o próximo post.

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