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sábado, 12 de julho de 2014

Por que sentimos CULPA? O que DEPRESSÃO tem a ver com RAIVA? Saiba mais sobre o SUPEREGO

A mente humana guarda segredos inimagináveis, mas alguns já são há quase um século conhecidos da Psicanálise, mas ignorados por grande parte das pessoas. O que a Culpa, a Depressão e a Raiva tem em comum? Você saberia responder em uma palavra?
Pois vou encurtar a discussão e ir direto para a resposta: é o SUPEREGO. Explicarei aqui o que é esta estrutura, o que ela tem de ruim (e principalmente, o principal motivo pelo que necessitamos tê-lo), como ela afeta diretamente nosso comportamento e nossa visão de mundo, e como ela se forma.
O Superego é a estrutura de sua mente responsável por controlar seu ego no que é certo e errado. De uma maneira bem simples, seria uma internalização da figura dos pais, mas é muito mais do que isso. E são estes pais internos que te fazem sentir culpa, vergonha e medo por fazer algo que você acredita ser errado... ou mais precisamente, que seu superego diz que é errado.
Esta estrutura se forma , segundo Melanie Klein, desde o nascimento, já segundo Freud, após a fase do complexo de Édipo (veja nosso texto aqui no site sobre este tema), a partir dos três anos de idade, aproximadamente. A teoria predominante hoje é a Kleiniana, na qual também acredito. 
O bebê, desde seu nascimento, busca adaptar-se às exigências do ambiente, e por ambiente incluo aí aqueles que lhe dão carinho, proteção, aquecimento, alimento, amor... em resumo, seus pais, ou aqueles que os substituem. Como disse em um post anterior, o bebê não sabe diferenciar seus pais de si mesma, assim como não sabe que a ausência, em especial da mãe, não é uma pessoa, ou um ser (ela não sabe que sua mãe está no quarto ao lado, por exemplo...). Por isto, a Psicanálise chama esta internalização da figura dos pais como um 'objeto' (objeto na psicanálise é tudo aquilo que, existindo apenas dentro de nós, é fonte de fortes sentimentos). A criança percebe que em determinados momentos mesmo chorando muito não conseguirá o que quer. Percebe que não consegue controlar o que está à sua volta... e que deverá ela sim adaptar-se, 'agradar' aqueles que lhe protegem e lhe dão amor, para conseguir mais amor, mais carinho, mais alimento... É assim que, mesmo na ausência da mãe, por exemplo, este 'objeto' internalizado diz à criança que não adianta chorar que naquele momento ela não conseguirá o que quer... (esta estrutura, este 'objeto' psicanalítico específico, formará o superego). Outros objetos formam outras estruturas mentais, mas vamos focar esta do superego.
Por se formar tão cedo, o superego possui grande parte inconsciente, não percebida (já que grande parte foi formada em fases pré-verbais do desenvolvimento da criança, fases em que ela não tinha capacidade de discernir de modo verbal o que ocorria...). Pouco a pouco, esta estrutura internalizada ganha mais importância quanto ao controle do que é certo e errado, do que as figuras reais dos pais. E é aí que entra a questão individual: o que definirá um superego muito controlador de outro mais permissivo não é a permissividade ou disciplina dos pais... (em parte será) mas o que definirá esta característica é a personalidade individual, sua índole pessoal. Se a criança tem uma característica mais irasciva,  raivosa, ela perceberá uma crítica de seus pais de forma mais intensa (mesmo que seus pais não disciplinem seus filhos de maneira raivosa). É esta visão mais ou menos distorcida que formará seu superego, e o deixará com características mais intensas, ou mais permissivas (espero com isto ter tirado a culpa que muitos pais sentem por não compreenderem o comportamento de seus filhos, em comparação com a criação que lhes deu). 
É graças ao SUPEREGO, então, que a criança será um adulto que obedecerá leis, regras, etiqueta social, enfim, é a base do comportamento em sociedade. Sem o superego a sociedade não existiria: nesta visão, a vivência em sociedade é uma ampliação de nossa criação em família.
O superego existe para compensar outra estrutura que nós temos: o ID. O Id é uma estrutura totalmente inconsciente, que se manifesta fazendo com que desejemos e busquemos sempre o prazer pessoal. Inclui-se aí as nossas necessidades básicas (reprodução, sobrevivência, alimentação, proteção, etc.). Por ser uma estrutura arcaica (antiquada, todos os animais, em tese, possuem estes instintos), somos capazes de fazer qualquer coisa para atingir estes desejos e necessidades. E esta busca desenfreada é capaz de passar por cima de qualquer respeito e consideração pelos de nossa espécie, e é aí que a vida em sociedade fica ameaçada. O superego tem esta função: o id nasce conosco (todo bebê é um ser egoísta por natureza, que busca preencher todas as suas necessidades), e o ego começa a se formar com o nascimento. O Ego é a percepção de si mesmo, perceber-se diferente do ambiente e dos seres á sua volta (quando a criança desliga-se do cordão umbilical da mãe, e nasce para um mundo frio, cheio de luzes e sons (que não conhecia), leva tal choque que este trauma é o formador inicial do ego (veja a importância que um trauma pode ter). Este Ego então percebe aos poucos que o bebê deve adaptar-se para conseguir preencher as necessidades do Id (e que alguns comportamentos do Id não serão tolerados), e a internalização destas regras (obtidas principalmente com os pais) vai criando o superego. 
Então você me dirá que quanto mais forte o superego, melhor seria, porque nossa sociedade só teria indivíduos obedientes e preocupados com as regras, leis, e com os demais indivíduos... mas não é assim que ocorre.
Um superego forte demais é capaz de massacrar o Ego, deformando a personalidade e criando diversos problemas psíquicos.
Lembra-se que a base de atuação do superego é a culpa? Pois é aí que diferencia-se um indivíduo saudável de alguém que não é, quanto a ela. Um superego normal faz com que o indivíduo sinta culpa de suas AÇÕES, e mesmo assim, é flexível suficiente para compreender erros toleráveis, e quando a pessoa errou tentando agir corretamente. Um indivíduo com um superego intenso demais fará com que o indivíduo sinta culpa até de seus pensamentos, de coisas que não fez (mas imaginou fazer, ou até mesmo sonhou), e não possui nenhuma tolerância quanto às ações do indivíduo (ele sentirá culpa tenha ele tido boas intenções ou não). Às vezes, sentirá culpa independentemente de atingir seu 'bom' objetivo... pois para seu superego hiperdesenvolvido, ele nunca atingirá seu altíssimo padrão de correção.
É aí que entra a Depressão. Estudos de Abraham (confirmados por Freud), há mais de cem anos, já confirmavam que as pessoas depressivas (na época, a Depressão era conhecida como Melancolia) possuíam um superego hiperdesenvolvido, pois constantemente criticavam a si próprias. Esta é uma das principais características da depressão, que a diferencia da tristeza normal. 
Outra característica da depressão, que está ligada a este super SUPEREGO é a intensa raiva e ódio, que no caso é voltada para a própria pessoa. Tal é a quantidade de energia que o superego dela puxa de sua mente, que tira toda a energia da pessoa para qualquer outra coisa (marca da depressão): ela não deseja fazer nada, nada atrai sua atenção ou desejo, apenas gosta de atacar a si própria. Sente culpa, uma intensa e interminável culpa, que não lhe dá um segundo de paz, faça o que fizer. Este é o mal de um superego hiperdesenvolvido, e repito: ele não é formado APENAS por pais extremamente controladores e disciplinadores... mas também pelas características inatas da personalidade de cada indivíduo. 
Mas não é apenas depressão que o SUPEREGO causa, quando é demasiado forte. Quando tamanha é a dor da culpa que o ego seria incapaz de suportar, o indivíduo pode tomar outra ação (de forma totalmente inconsciente): ele pode PROJETAR em outras pessoas á sua volta toda a raiva proveniente do superego, para compensar a CULPA que sente internamente. Neste caso, o tamanho da raiva que ela projeta é proporcional à culpa que sente. É fácil identificar este tipo de pessoa: é aquela pessoa extremamente controladora, que acha que ninguém faz nada correto, que deseja punição exemplar para o mínimo erro alheio... alguns apresentadores de televisão são característicos, em especial os de programas policiais... Um dos mais famosos apresentadores de programas policiais do Brasil, conhecido por seu ódio contra bandidos e ladrões, aliás, possui forte histórico de depressão, que se intensificou quando seu filho se envolveu com drogas. Conhecendo a história pessoal de cada um, de forma completa, começamos então a compreender algumas atitudes, ações e pensamentos que, apesar de injustificáveis, fazem-nos termos maior compadecimento do sofrimento interno que cada um passa.
Concluindo, o superego, desde que possua um equilíbrio de forças com o ego e com o id, proporciona uma vida saudável, e é uma estrutura necessária para nosso convívio em sociedade. Alguns ramos psicológicos pregam que se fôssemos mais evoluídos poderíamos dispensar o superego, pois sentimentos mais profundos do ser humano como a compaixão e o amor ao próximo poderiam perfeitamente controlar os impulsos primitivos do id e fazer com que vivêssemos em uma sociedade sem leis ou regras, mas com respeito, solidariedade. Acho, pessoalmente, utópica esta visão. Somos ainda muito mais animais do que achamos. Nosso id e inconsciente nos controlam muito mais do que pensamos, em especial o ser humano médio, que não possui a mínima noção de como funciona sua mente. Ainda precisaremos de leis, regras, do superego, e da culpa, que nos perseguirá até o túmulo, e à sociedade, até o momento em que percebermos que o amor é muito superior ao ódio e á culpa. 

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