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sábado, 2 de agosto de 2014

A ANGÚSTIA: de onde vem, por que temos, como contê-la? A MATÉRIA PRIMA de todos os outros SENTIMENTOS HUMANOS

A angústia é o sentimento mor do ser humano. A partir dele surgem todos os outros, sejam os relacionados ao amor (EROS), empatia, cuidado com o próximo, ou os de destruição e morte (Thânatos), ódio, raiva, agressão. A palheta de cores dos sentimentos humanos começa a partir daí, a angústia. E ela é tão profundamente enraizada em cada um de nós, que a ‘Angústia Primordial’, o início de tudo, é tão intensa e capaz de abalar todas as outras estruturas de nossa psique, que a consciência retira de seu campo qualquer resquício de lembrança desta fase pré-verbal de nossa infância. Mas ela sobrevive, como nunca, a partir do inconsciente, com tentáculos em toda e qualquer área da sua psique, mesmo que você não a sinta diretamente. Saber como ela se forma, e como se transforma em medos, tristezas, vontade de ajudar o próximo, desejo de viver intensamente... é conhecer um pouco mais sobre nossa própria essência humana. Te convido agora a saber de onde ela veio, e para onde ela poderá ir: a angústia humana.

Os leitores assíduos de nosso site, em especial desta coluna sabática, devem ter percebido uma sequência nos Conceitos de Psicanálise que apresento semanalmente. Com a angústia não é diferente. Falamos nas últimas semanas do Complexo de Édipo, da Castração e da Fantasia. Estes conceitos foram necessários (se não leu, procure nos posts anteriores estes temas – Conceitos de Psicanálise) para poder entender de onde surge a Angústia humana, e em especial a ‘Angustia Primordial’, o sentimento básico que nos move, queiramos ou não.
Quando  falamos do Complexo de Castração, falamos da ‘mãe boa ‘ e da ‘mãe má’, conceitos inicialmente criados por Melanie Klein. Revendo: a presença da mãe era considerado a ‘mãe boa’, ou seja, proteção, carinho, calor humano, segurança. Tudo que não fosse isto poderia ser representado pela ‘mãe má’, inclusive a ausência da mãe.
Com o desenvolvimento natural da criança, ela perceberá que a ‘mãe boa’ contém a ‘mãe má’. Perceberá que a ausência da mãe não faz com que ela deixe de existir (ela pode simplesmente estar na outra sala, ao lado). Está aí uma gigantesca forma de angústia, que para alguns psicanalistas é a fonte da ‘angústia primordial’ : quando a criança percebe que, se o que ele tem mais medo (a ausência / falta da mãe, e outras coisas desagradáveis como falta de proteção, falta de carinho, etc.) também está na mãe (tudo o que ele deseja e anseia desde que nasceu – se pudesse nunca teria se separado dela), teme que a primeira elimine a segunda. Este medo é primitivo, pré-verbal, inconsciente. Significa que a criança não raciocina assim: esta fantasia, quase que por lógica, surge naturalmente. E sem meios psicológicos para analisar a veracidade deste pensamento, de tentar entende-lo, de ir buscar uma solução... sua mente utiliza a única ferramenta que tem disponível: a fantasia para tentar dominar este medo, que a perseguirá por toda a vida, tamanha é a profundidade das raízes que aí se instalam.
Nos jogos infantis é fácil perceber, desde tenra idade, tentativa de minimizar esta angústia primordial. Movimentos repetitivos (nos bebês) de afastar e pegar de volta objetos, denotam tentativa de busca de controle. O afastar simbolizaria tudo que existe de ruim, e o pegar de volta seria o símbolo de controle sobre o que é bom... retomar para si a mãe boa.
Mais tarde, quando a criança consegue verbalizar, vemos nas histórias inventadas pelas crianças, nos seus desenhos, nas brincadeiras com outros colegas, sempre histórias com temática ‘agressiva’, mas que, na maioria das vezes, são apenas símbolos da angústia interna pela qual passam. Boneco X matando boneco Y... um cortando a cabeça do outro, destruindo isto e aquilo... e no final um herói (muitas vezes a própria criança) surgindo na história para conter tudo ou, então, outro final comum nestas histórias feitas pelas crianças: o término brusco da história, sem salvação, sem herói, só destruição... como se ela mudasse totalmente de assunto e não quisesse mais tocar no tema. E se algum adulto pergunta sobre a história que não teve continuidade, ou a criança inventa um final sem relação alguma com a história anterior, ou ignora simplesmente o pedido, demonstrando total desinteresse em sequer pensar na história.
 O que acontece aqui é a estruturação da mente dos pequenos. Eles não querem falar, ou precisam de um herói para consertar tudo do nada (já ouviram falar do Deus Ex-Machina dos mitos gregos??? Tem toda a relação com o que estamos falando aqui... se não conhece, mais à frente falarei sobre eles, quando começar a escrever sobre mitologia), porque a angústia é demasiado grande para seus egos em formação. Se insistirem na angústia, ainda com poucas defesa, o ego pode se desestruturar.
Outros psicanalistas acreditam que a angústia primordial começa desde o nascimento (outros, que começa até antes disto). Acredito que é a tese mais bem aceita, com a qual a grande maioria concorda, que o nascimento causa um trauma que jamais será esquecido por todo ser humano, e devido à precocidade do trauma, juntamente com a falta de estruturas psicológicas protetivas no infante, a repercussão psíquica disto será o nascimento da maior angústia, mãe de todos os demais sentimentos e ações que teremos ao longo de nossas vidas (direta ou indiretamente), que seria a já citada Angústia Primordial.
Não é difícil imaginar que a sensação que o bebê deve ter ao sair do útero materno (inconscientemente, nossa noção do que é o paraíso, onde temos tudo, toda a segurança, alimento, proteção, e não precisamos fazer nada a não ser usufruir de todo calor humano que lá podemos conseguir) e encontrar um mundo com barulho, luz, frio, pessoas mexendo em você (sendo que o bebê mal tem condições sequer de conseguir, por conta própria, virar seu corpo ou o pescoço para o lado)... o primeiro grande TRAUMA a gente nunca irá esquecer, acredite, e não nos recuperaremos totalmente dele nunca mais. Segundo a Psicanálise, daí surge a origem mitológica da ‘queda do paraíso’, não apenas na cultura cristã, mas em diversas culturas pelo mundo (até mesmo na mitologia grega).
A partir daqui, temos que separar dois grandes conceitos sobre a angústia, para podermos separar também até onde este sentimento é necessário e útil, e em que momento é paralisante, prejudicial, retrógrado. Estou falando da separação da angústia persecutória e da angústia depressiva.
Esta angústia primordial, a primeira que surge, é caracterizada por um sentimento indescritível de destruição total, submissão a forças incontroláveis, perda de tudo e de todos. É o medo descomunal, sem qualquer possibilidade de defesa e sem qualquer explicação ou controle para tentar impedi-lo. É a visão do bebê do trauma de seu nascimento. Conforme ela vai se recuperando , esta ‘base da angústia’ ficará em segundo plano, no inconsciente, as duas formas de expressá-la surgirão. A diferença entre as duas é que na angústia persecutória a pessoa ‘pressente’ que ela sofrerá um ataque, já na angústia depressiva, o ataque seria em algum objeto (no sentido psicanalítico, podendo ser um objeto físico ou mesmo uma pessoa de quem gosta muito, como a mãe, por exemplo). Em ambos os casos, há presença da sensação de vulnerabilidade e da incapacidade de fazer algo para proteger-se ou ao objeto/pessoa amado.
Porém, a diferença destes dois tipos de angústia são mais profundas. A angústia Persecutória está ligada mais a um complexo narcisístico, muitas vezes é irreal (não há perseguição nenhuma), e está na base de quase todo tipo de paranoia. As reações a uma pretensa ‘perseguição’ não precisa, neste caso, ter fundamento ou razões: a pessoa imagina, por exemplo, que ninguém irá gostar da palestra que ela fará, ou que todos no trabalho lhe odeiam, ou que será assaltado se passar na rua X. Mesmo que saibamos que determinada rua é perigosa, há a possibilidade de tomar alguma atitude, alguma decisão/ação para minimizar o risco, seja passando por outra rua mesmo que aumentando o tempo de trajeto, ou chamando a polícia, andar em grupos, etc. A angústia persecutória, entretanto, de tal forma toma conta da consciência, que a pessoa toma uma das duas mais primitivas reações: luta ou fuga. A paralisia (por exemplo, fazer de conta que esqueceu determinado compromisso que lhe obrigaria a passar por esta rua) é uma opção ligada à fuga, por exemplo. Andar armado aguardando um suposto ataque de um bandido, uma forma de luta. Percebeu, nestes simples dois exemplos, as consequências da angústia nas nossas ações e comportamentos?
Já a angústia depressiva, apesar de também possuir um lado ruim (principalmente quando está ligada a um forte sofrimento psíquico, capaz de paralisar o indivíduo ou afundá-lo em uma grave depressão), é a base da socialização humana, e das maiores demonstrações de preocupação com o próximo. Em toda depressão profunda (assim como nas leves) ela está presente, e sua verdadeira causa, quando analisada, chega sempre ao conflito inicial de incapacidade e vulnerabilidade de si e das pessoas / coisas que tanto se ama, frente a um mundo hostil, imprevisível e no qual somos menos que um grão de areia.
Em primeiro lugar, por estar voltada ao medo de destruição de outro objeto/pessoa, caracteriza uma evolução do indivíduo, que para tal, precisa ter ultrapassado a fase narcisística de sua evolução psíquica. Preocupar-se com o outro (seja outra pessoa ou objeto) já é um forte sinal desta evolução.  Em segundo lugar, também demonstra o surgimento da empatia, que é base do amor e da vida comunitária evoluída, pois não se procura evitar somente a dor que ‘eu’ mesmo posso sofrer... não quero ver sofrer quem está ao meu lado... sinto sua dor. Sem este sentimento, não há sociedade.
Com o desenvolvimento psíquico, indivíduos que apresentam grande compreensão da coletividade e da sociedade, tendem a ser tomados pela angústia depressiva. O próprio auto-conhecimento, através da psicanálise, tende a aprofundar esta angústia, através da reflexão dos objetivos de vida e seu significado para cada indivíduo. Por este motivo, deve-se sempre salientar que a Psicanálise não busca a felicidade do indivíduo, mas sim, em primeiro lugar, uma forma dele tomar conhecimento da profundidade de sua angústia e agir de forma a minimizá-la e aprender a lidar com a mesma. Vários são os exemplos para se lidar com este tipo de angústia, todos voltados para boas ações: cuidar do próximo, agir corretamente, dentro das leis (não por medo, mas por vontade de fazer a sua parte esperando que os demais também o façam, para que nenhum mal seja causado para qualquer pessoa), ajudar a quem precisa... enfim, as ações filantrópicas, fazer algo em busca de um mundo melhor  e qualquer ação que tomamos para cuidar de outro (que não seja, inicialmente, a nós mesmos), tem, na verdade, a busca da diminuição da própria angústia como sua maior meta.

Como conter a Angústia?


Segundo Wilfred R. Bion (O Aprender com a Experiência, Editora Imago, 2003), todo aprendizado e desenvolvimento passa pela dor psíquica (leia-se angústia). Sua capacidade de tolerar, ou melhor, ultrapassar os limiares da dor da angústia é diretamente proporcional à sua capacidade de desenvolvimento psicológico. Não falo aqui só de sua capacidade intelectual de cálculos, ou de ir bem em provas na faculdade. Incluo todo tipo de inteligência, inclusive a emocional, a relacional, a social, a espiritual e todas as outras definidas por diversos teóricos (sugiro o livro Inteligência Emocional, de Howard Gardner). 
Neste processo de tentar conter a angústia (que todos nós temos), Bion qualificou três tipos de comportamentos, cada qual apresentando sua própria maneira de lidar com os sentimentos: a primeira forma, mais primitiva e instintiva, é negar a angústia e criar um mundo de fantasia em sua mente. O bebê (ou o adulto) simplesmente ignora tudo que está no mundo real e não funciona como gostaria que funcionasse. É a ignorância total, uma fase totalmente narcisística e fechada, em que não há troca com o ambiente, tampouco algum aprendizado. 
A necessidade de adaptação (forçada pela pressão do ambiente) fará com que o indivíduo vá para a segunda fase, a de projetar a angústia e idealizar determinados fatos, coisas e pessoas, e a depreciar outros. É o que o bebê faz quando cria a fantasia da 'mãe-má', ou quando o adulto vê no chefe do trabalho uma pessoa extremamente terrível capaz de destruir sua vida profissional, e a quem deve obedecer incondicionalmente. Nesta situação, nada aprendem (tanto o bebê quanto o adulto). Precisam passar para a fase seguinte, sob o risco de regredirem constantemente para a fase anterior (negação da realidade) e viver em um mundo de fantasia em que nada corresponde à realidade. 
A terceira maneira é tentar agir, modificar a situação que causa a dor psíquica. É o início do fortalecimento da personalidade. Demonstra já aqui um tipo de moderação capaz de fazê-lo entender melhor como é o mundo e a adaptar-se a ele. Percebe que o mundo não funciona da maneira que deseja, e se quiser viver melhor terá que modificar qualidades tanto internamente quanto externamente (no ambiente). Suportar esta fase até conseguir modificar o que se quer, é a base do verdadeiro e sadio processo de contenção da angústia. 
Infelizmente passaremos por isto durante toda nossa vida, caso queiramos constantemente nos desenvolver e evoluir. Mesmo que decidamos viver nas fases anteriores, também ali haverá angústia, mais voltada para para o processo narcisístico, a projeção, a idealização, enfim, uma forma de tentar encaixar o mundo no que você idealiza dele: tarefa nada fácil e de resultado trágico. 
Enfrentar a angústia, adaptar-se quando necessário, aceitar o que não se pode mudar no mundo, compreender que todo ser humano passa por este processo e mesmo assim, desejar o bem a todas as demais pessoas (mesmo as que agem demonstrando que não tem a mínima consciência disto) é o que se pode chamar de mais elevado nível psíquico que um ser humano pode alcançar, e se não traz paz com relação à angústia existencial da vida, diminuirá sua dor, preenchendo seu coração com um pouco do calor dos bons sentimentos que ela também é capaz de gerar, como amor, compaixão, compreensão, aceitação e esperança. 
Até mais! 



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