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sábado, 30 de agosto de 2014

SUBLIMAÇÃO - o ápice do SER HUMANO: O que é? Como buscá-la? Por quê buscá-la? O objetivo central da Psicanálise

Finalmente chegamos a um dos meus conceitos preferidos de psicanálise. O publico hoje pois tem muito a ver com uma data especial para mim nesta semana. Sublimação é um dos conceitos máximos da psicanálise freudiana, em torno do qual giram todos os demais. É o objetivo de nossa evolução como seres humanos, é o melhor que podemos fazer com o que a natureza nos deu. Também é um dos mais complexos na prática, mas não muito difícil de entender na teoria. Freud diria que a sublimação está na criação de novos valores às percepções que o indivíduo tem de si e do mundo, motivado pela ética e pela estética. Apesar de curta, esta frase é capaz de render longos e longos comentários e explicações.
Espero que este texto ajude de diversas formas muitas pessoas a entenderem o que esperam de suas próprias vidas. A se sacrificar na medida certa, pelas coisas certas. A saber quando estão buscando algo que realmente vale à pena e quando estão apenas querendo se empanturrar do mesmo. Quando (por exemplo) vale a pena sacrificar-se anos estudando para passar em um concurso (e como isto te ajudará a passar), e quando anos de estudo nunca irão te fazer sair do lugar (recomendo este texto até o final, especialmente para concurseiros novatos que pensam em  ficar pulando de galho em galho em busca de um salário maior).
Também serve para aqueles que pensam em ganhar, ganhar e ganhar mais e mais, mesmo que seja à custa dos outros, e ainda acham que são muito inteligentes, e sairão impunes (nunca de si mesmos). Mas não apenas para eles. Este texto servirá para qualquer pessoa que tenta entender a grande divisão interna que há em nossa mente humana, e qual a forma mais saudável de lidar com ela: prazer X sacrifício, instintos X ideais , ganância X generosidade... e assim vai – só mudam os nomes, o conceito é o mesmo.
Este texto será longo. Espero que não seja cansativo para você, meu leitor / minha leitora. E que lhe ajude de alguma forma a entender melhor a si mesmo e às outras pessoas. Vamos lá?

Utilizando uma analogia junguiana (peço licença aos amigos junguianos pelo uso fora da teoria de Jung), imagine o espectro da luz: em uma ponta de comprimento de onda, temos o infravermelho (invisível ao olho humano) e a partir do vermelho (visível) temos as cores do arco-íris, até chegar no violeta (também visível) e a partir daí, o ultravioleta (já invisível). Imagine que esta seja uma escala, como se fosse uma régua. Embaixo está o vermelho, acima o violeta. O que está visível está na consciência. O invisível, no inconsciente. Continuemos.
Do vermelho para baixo, estão seus instintos, ou seja, as formas de comportamento inatas, em que você age mais por força do que seu corpo quer que você aja do que através do pensamento. Aliás, o que marca o instinto é a previsibilidade do comportamento, a falta de escolha racional para agir. No espectro dos instintos você está sob controle de seu corpo, e irá agir de acordo com que suas necessidades básicas (fome, sede, sexo, proteção, prazer) te obrigarem a agir. Queiramos ou não, nunca fugiremos totalmente dos instintos. Somos ainda muito mais animais do que imaginamos ser, e é entendendo o que é sublimação que você entenderá que não se trata de negar ou lutar contra os instintos. Eles são parte do que somos.
Quanto ao espectro superior, temos o violeta como última frequência de onda de luz visível. Ele representa a mente, a nossa parte racional, nossas emoções mais superiores. Nossa noção estética (o belo), nossos ideais, nossa empatia e consideração pelos outros, nossa capacidade de amar, de dar a própria vida pelo que acreditamos. Quando estamos tomados por esta parte do espectro, esquecemos que somos seres vivos. Nossos ideais, nossas crenças, nossa fé está acima de tudo. Sacrificamo-nos muito além de nossos limites normais. Esquecemos que temos instintos (fome, sede, proteção, busca do prazer). Preocupamo-nos mais com os outros do que conosco mesmo. Se no vermelho (e no infravermelho) estamos no máximo do complexo narcisístico (só vemos nosso próprio umbigo, achamos que o mundo gira ao nosso redor), no ultravioleta tentamos abarcar o TODO, pois sentimos, percebemos que somos um ínfimo grão de areia num universo gigantesco. Com esta visão, respeitamos o que está à nossa volta sabendo que estamos no mundo para servir, não para sermos servidos. Saímos do nosso corpo (através da mente) para ocupar um outro lugar, em outro espaço que não onde estamos fisicamente.
Mas não pense (como muitos pensam) que não há perigo no ultravioleta, pois há: o ego (a noção que você tem de quem você é) está baseada no seu corpo físico. Ao esquecer  de si mesmo(a) enquanto ser vivo, você anula sua individualidade, que é o que te faz diferente, único. Anular-se desta forma aumenta, em primeiro lugar, o risco de desintegração do ego (pessoas idealistas estão mais sujeitas à baixa adaptabilidade social – grandes problemas de integração social – que podem levar à depressão, ao radicalismo, à agressividade, à exclusão social). Também podem levar à intensos sacrifícios físicos que afetem diretamente sua saúde, colocando a pessoa em risco de anular-se e esgotar-se enquanto tenta fazer o bem a outras pessoas (o que não deixa de ser uma espécie de suicídio, pois atenta contra o maior de todos os instintos: o da auto-sobrevivência). Também não devemos esquecer que vivemos ao lado de pessoas que nem sempre estão (ás vezes nunca estiveram) em uma frequência ‘alta’, próxima do violeta... e nestes casos, sempre quem se doa demais aos outros (que não merecem) sairá prejudicado, pois será constantemente abusado pelos demais.
Lembre-se desta regra: quanto mais próximo do vermelho, mais estamos voltados à satisfação de nós mesmos e esquecemos dos outros. E quanto mais próximo do violeta, mais nos preocupamos com o TODO, com os outros, com os grandes ideais... e esquecemos de nós mesmos. Nenhum extremo desta régua é bom.

A vida mediana


O meio da régua significa apenas uma vida medíocre, uma pessoa que é levada ora por ideais simplórios e ora por vontades e desejos de curto prazo que a tomam de sopetão. É a típica pessoa que no final do ano se endivida toda para fazer uma grande festa de natal, e passa o ano seguinte todo trabalhando e pagando empréstimos, e sua vida se resume a isto. É a pessoa que quando tem um tempo livre quer apenas assistir  aum jogo de futebol ou a novela na televisão, e nada mais. É aquela pessoa que pouco se importa em quem está governando o país, ou quanto de corrupção a obriga a pagar mais impostos, desde que esteja recebendo seu mísero salário todo mês e ainda tenha emprego. É também aquele grupo de pessoas que antigamente se chamava ‘pequeno burguês’, e hoje chamamos de ‘nova classe média’. Não são todos, claro, mas a grande maioria, infelizmente (conhece a curva ‘normal’, de Estatística?). São aquelas pessoas incapazes de se sacrificar por algum grande ideal (até porque não fazem a mínima ideia do que significa isto.  Só querem preencher pequenos prazeres cotidianos, como um churrasquinho no final de semana, um cinema no sábado, dormir até mais tarde no domingo, e esperar a morte chegar. É isto.
Se eu as culpo? Não. A grande maioria das pessoas faz o que chamamos de ‘sublimação incompleta’. É
exatamente isto. Se analisássemos o inconsciente desta grande maioria, pode ter certeza que grandes instintos estão lá presentes (estão em todos nós). Mas então, se na grande maioria não há os grandes ideais da mente (o ultravioleta), o que as segura para que busquem de maneira animalesca preencher seus instintos (de prazer, de fome, de ganância, de agressividade)?
Respondo: a repressão social. O medo de ser preso, de ser mal visto pela família e por conhecidos, de ser agredido quando for agredir, e principalmente : eles abrem mão de preencher seus grandes instintos para poder sentir de leve o gosto deles, de maneira mais amena. Se fosse perguntado se a maioria dos homens gostaria de ter um harém ao seu dispor, certamente eles responderiam que sim. Se eles fossem honestos, também poderiam dizer que apesar de não saírem por aí procurando toda mulher que se lhes oferecesse, mesmo os comprometidos, muitos deles ou traiu ou gostaria de trair sua companheira se soubesse que sairia impune (e não a perderia ou sofreria consequências, até legais).

A sublimação incompleta feminina


E se falei dos homens (o faço com propriedade, pois sou homem e conheço de dentro sua forma de pensar e os instintos que envolvem seu comportamento), também posso recomendar obras que explicam a sublimação incompleta feminina. Uma visão crítica do livro de Christiane Olivier, traduzido no Brasil com o Título ‘Os Filhos de Jocasta’, tradução de Neide Luzia de Resende, da Editora L&PM, pode permitir, através de uma visão feminista (ás vezes parcial demais) um olhar crítico para o comportamento feminino e a possibilidade de evolução para uma nova forma de pensar feminina. Aconselho ao leitor crítico retirar seu foco, neste livro, de toda acusação que seja direcionada ao ‘patriarcalismo’, a Freud, ao homem de uma maneira geral, e concentre-se nos questionamentos da forma de comportamento feminina na sociedade atual, e verá, tanto quanto no citado exemplo dos homens, que a busca pela aceitação, por ser apreciada por tudo e por todos, por ser considerada bela (mesmo em detrimento de sua saúde ou sabedoria), pela busca incessante de algo que lhe falta e que muitas vezes nem ao menos sabe o que é, começa desde cedo e perseguirá a menina/mulher por toda a sua vida, fazendo com que seu instinto seja atrair ‘olhares’, ser percebida, seja amada, seja aceita... e gaste toda sua energia nisto, jogando nas catacumbas do inconsciente todos os reais desejos e sonhos de quem realmente gostaria de ser e do que gostaria de fazer de sua vida. Trate sim de uma meia sublimação (pois está além do desejo da mera sexualidade ou da aceitação social). Mas muito longe de fazer da mulher dona de seu próprio destino. Ela é muito mais objeto do que acredita que os outros pensam dela, do que realmente escrava dos outros e da sociedade. E a angústia de talvez nunca ver preenchida nem ao menos esta ‘meia realização’ a persegue, a ponto de fazer da mulher moderna tal nível de angústia (por não ser quem gostaria de ser, e não atingir o ideal que acha que deveria atingir) que os modelos de ‘mulher perfeita’ que vemos nas revistas femininas (corpo esbelto, realizada sexual e profissionalmente, invejada pelas outras mulheres e desejada por todos os homens) é buscado (e raramente atingido) a qualquer custo e preço. E a grande maioria se nivela por baixo na escala dos instintos. Não é à toa o simbolismo presente no batom e rosas vermelhas.
 Pareço duro demais ou realista? Apesar de as regras sociais imporem um mundo monogâmico, o instinto do homem ainda o tenta conduzir à poligamia. As duas únicas formas de atraí-lo à monogamia é através da repressão (para a grande maioria que não possuem contato com o ultravioleta, com os ideais de uma relação monogâmica) ou justamente através de um grande ideal (minoria das pessoas) que realmente acreditam que numa relação monogâmica poderá desenvolver-se psicologicamente melhor e crescer como pessoa de uma forma mais sólida. Quanto à mulher, segundo a Psicanálise, a mulher desde cedo ocupa um papel difícil dentro do Complexo de Édipo. A identificação do filho com a mãe não é a mesma que da filha
com a mãe. Ela buscará a identificação com o pai, e para tal, iniciará (inconscientemente) este processo de ‘atrair a atenção’, que aprimorará (e ao mesmo tempo a aprisionará) mais adiante e por toda a vida. Será seu complexo, e sublimá-lo irá requerer muita criatividade a fim de, sem perder sua ‘feminilidade’, também possa buscar ser quem realmente é, independentemente das atenções alheias.

Preenchendo-se por completo


Da mesma forma que há pessoas que respeitam os sinais de trânsito porque acreditam contribuir para a segurança de si e dos outros, e os que o fazem apenas por medo de levar uma multa, também há os que respeitam o casamento pelo seu ideal, pela possibilidade de usufruir de ‘energia’ mais produtiva e criativa em outras áreas da vida do que correr constantemente atrás de outro rabo de saia (estes homens não pararam para contabilizar o ‘gasto’ energético e financeiro que terão correndo atrás de mais e mais mulheres), e aqueles que vão à igreja para expiar seus pecados e serem bem vistos pelos vizinhos, como aqueles que o vão para fazer uma autocrítica pessoal e tentar melhorarem a si mesmos como pessoas. Acho que começamos aqui a delimitar a diferença dos dois tipos.
Mas ainda não chegamos no ponto mais saudável e equilibrado desta régua. Fazendo uma outra analogia (que pode soar até chula), mas pode  ser expandida para todas as outras áreas da vida: o homem pode pensar com a ‘cabeça’ de cima ou com a de baixo... mas entre elas há o coração, de onde surgem os mais elevados pensamentos e ações do qual é capaz. Voltemos à régua das cores da luz. Se os extremos (ultravioleta e infravermelho) são incompletos, sublimação seria como torcer a régua e fazer os dois opostos se tocarem e se unirem. Sim: unir pensamento e instinto... agir  ativa e racionalmente preenchendo seus instintos da maneira mais elevada que se possa fazer. Sentir-se preenchido quanto às suas necessidades mas com o controle de sua racionalidade, e não como um animal sedento por saciar-se.
Se ainda ficou difícil entender desta forma, tentemos de outra. Conheçe a Pirâmide das necessidades de Maslow? Se não conhece, clique aqui :
pelos instintos (vermelho e infravermelho da escala) seria tentar preencher apenas a base da pirâmide (necessidades fisiológicas e de segurança, basicamente, e num segundo momento, a necessidade social, de relacionamento). A parte de cima da escala (violeta e ultravioleta) seria como o topo da pirâmide : estima e realização pessoal (se bem que considero ser muito mais do que isto – considero ser a integração ao TODO, mas falarei mais disto em outra oportunidade). Mas em qualquer das opções, a pirâmide estaria incompleta. Sublimar seria preencher toda a pirâmide, ao mesmo tempo. Tarefa extremamente difícil, mas enriquecedora. O ápice do pensamento e do ‘existir’ humano.
O complexo nesta situação é que somente a própria pessoa pode avaliar se está sublimando, ou se é uma sublimação incompleta, ou mero preenchimento de instinto. Vamos ver alguns exemplos (são meros exemplos, para que cada um avalie a si próprio a partir do entendimento do que explanei aqui): uma mãe solteira que se sacrifica trabalhando e cuidando dos filhos para dar-lhes tudo que querem, provavelmente está realizando uma sublimação incompleta (seu sacrifício pode não estar sendo aproveitado para algo maior, apenas para que se sinta realizada como mãe através dos filhos). Seus filhos, em especial se não derem o devido valor para o sacrifício de sua mãe nesta situação, podem nem sequer estar sublimando, apenas tendo preenchidos seus desejos e necessidades primitivas (de ter o celular da moda para se enturmar com os ‘colegas’ de classe, para se exibir para os ‘namoradinhos(as)’, etc.). Ou então, podemos ter uma verdadeira sublimação, com uma mãe que se sacrifica e educa, ás vezes severamente seus filhos, deixando ás vezes de lhes dar o que querem para pagar-lhes uma escola melhor, comprar bons livros e material escolar, ensinando-lhes o valor da verdadeira educação, fazendo com que ao longo do tempo sejam  melhores seres humanos que ela mesma.
Percebeu? Realizar-se através dos filhos (fazendo-os ser o que não foi) não é uma verdadeira sublimação, seria mais uma compensação. É o preenchimento de um desejo próprio, na realidade esquece-se que os filhos são seres independentes. Já  sacrificar-se, independentemente de ser julgada pelos outros ou pelos filhos como uma má mãe, mas sabendo bem o que objetiva, que sejam boas pessoas... isto sim é uma verdadeira sublimação.
Vamos para outro exemplo, o qual estou mais acostumado a ver. Pessoas que fazem concursos públicos olhando apenas o valor do salário (só querem ganhar mais, independente do que irão fazer, para onde vão, ou se realmente serão bons funcionários públicos). Vejo de monte, todos os dias. Estão na base da pirâmide, estão pensando no próprio umbigo. São narcisistas típicos (por este e outros motivos que noutra oportunidade pretendo detalhar). Tendem a ficarem insatisfeitos em qualquer trabalho, pois só focam o salário. Nunca estarão sublimando realmente. Na outra ponta da escala, temos os idealistas. Cito como maior exemplo os professores: pessoas que realmente têm o dom de fazer o que fazem, mas ganham péssimos salários, e tem condições incrivelmente ruins de trabalho. O fazem (na grande maioria das vezes) porque acreditam que estão ajudando a fazer um mundo melhor. Em troca, sacrificam a própria carreira, vida financeira, às vezes à vida pessoal. Não é raro ver professores casando com professoras, e isto se justifica porque, muitas vezes, só um outro que esteja no mesmo nível elevado da escala ‘de pensamento’ conseguirá suportar os sacrifícios ao seu lado, sem abusar ainda mais de sua boa vontade. Mas isto é meia sublimação, eles estão sacrificando suas próprias vidas, ideologicamente, esquecendo-se de que mereceriam mais respeito e dignidade através de um salário digno, melhor estrutura de trabalho, reconhecimento de seu esforço.

Vermelho + Violeta


Como unir esta escala? O Vermelho com o Violeta? Não há uma receita precisa, pois é algo muito pessoal e depende das condições de vida de cada um. Mas é isto que diferencia a sublimação do preenchimento do instinto. O primeiro pode-se preencher de diversas formas, inimagináveis até. O segundo, de uma forma apenas. Talvez, no caso do professor, ele poderia atuar profissionalmente em algo que lhe sustentasse economicamente de forma digna, e ter como segunda profissão (ou trabalho voluntário) ações pedagógicas, atuar como professor, voluntário em cursinhos pré-vestibulares, etc.  Ou procurar na própria profissão formas de continuar fazendo o que tanto gosta e se identifica, mas que lhe proporcione melhor sustento da base da pirâmide. Instinto e Mente, atuando junto com o coração.
Agora, você deve estar se perguntando, porque insisto tanto que unir instinto e mente numa ação, sublimando totalmente, é melhor que a meia sublimação que a maioria das pessoas fazem. É simples: grande parte de sua energia está no inconsciente. É para lá que ela vai quando você tem uma depressão. É de lá que ela vem quando você está inspirado. Se você quer ter acesso à vontade de fazer algo como nunca teve
em sua vida, procure um significado maior para ela. Identifique-se com este ‘sonho’ e faça ele ser viável na realidade (que ele possa te sustentar economicamente, te dar segurança, proteção, alimento...). Quando você conseguir isto, dará tudo de si neste seu projeto, e dificilmente se sentirá cansado, chateado, triste... pois o suprimento de energia de seu inconsciente será praticamente ilimitado. Lembra-se daquele ditado: Faça o que gosta e nunca mais irá trabalhar? Acrescente : ‘faça o que gosta e que seja útil a você e aos outros...’, e terá o que entendo ser sublimação.
Quando você faz uma sublimação incompleta, apesar do inconsciente liberar uma pequena parte da energia ao inconsciente, grande parte ainda fica retida lá, alimentando complexos que são rejeitados pela consciência, e que podem ser capazes de paralisá-la. O aumento da energia dos complexos inconscientes pode demandar defesas cada vez maiores do consciente, retirando energia controlável e alocando-a nas defesas (menos energia disponível para você utilizar onde quer, como estudar, se concentrar, se divertir, etc.). Com o tempo, você cria uma espécie de Guerra fria entre consciente e inconsciente, prestes a explodir a qualquer momento. Sua vida consciente fica estagnada, não há energia / vontade para fazer quase nada, e você começa a acreditar que sua vida atual não tem nada de significativo, e não faz nada de útil a si nem aos outros. É quando você não vê luz no fim do túnel (mas não percebe que foi você que entrou no buraco, sozinho). Não adiantará pedir ajuda ao inconsciente: será necessário muito mais que uma ‘rendição’ TOTAL do ego e da consciência para que a paz volte a reinar em sua cabeça. E te asseguro que, raramente, o ego estará disposto a se render. Também asseguro que nunca vi o inconsciente perder esta guerra (apesar de poder perder algumas batalhas).

Quando se insiste na sublimação incompleta


Voltemos ao caso dos ‘concurseiros’ que só buscam salário alto. Todos os que conheci nesta condição ou se transformam em um profissional com alto salário e extremamente angustiado, preso no cargo, infeliz e depressivo... sempre com medo de perder sua ‘Função Comissionada’, sempre com medo de perder sua ‘boquinha’... ou então, o que acontece com a maioria, nem sequer consegue passar nos concursos com maiores salários, pois seu inconsciente, sabendo de suas verdadeiras intenções, não libera a energia suficiente para que alcancem alto índice de concentração nos estudos. Vejo constantemente isto: pessoas que não conseguem se concentrar realmente nos estudos, e não conseguem enxergar que o que está errado é o ‘porque’ querem aquele cargo. Quando a resposta, mesmo que inconsciente, é que é porque é um salário maior... fica claro para mim o porque (mas não adianta revelar isto à pessoa, é um ponto cego para ela...). O inconsciente é autorregulatório, capaz de uma justiça interna tremenda...
Meu rendimento em concursos e na vida melhorou muito quando percebi isto, anos e anos atrás. Quando, ao fazer Análise Transacional, e posteriormente estudar Psicologia Analítica, percebi que devo obedecer ao meu ‘coração’ e procurar meus ‘dons’, sentir o que realmente me preenche, e aí sim, fazer de tudo para realiza-lo. Não digo que já alcancei. Mas sei que estou no caminho certo, pois percebo uma energia fluindo em mim, e que não é da racionalidade apenas. Quando você sente isto, pode estar certo que neste momento seu inconsciente e o consciente estão, mesmo que momentaneamente, de mãos dadas. E neste momento, você sente-se realmente vivo, participativo, dono de sua vida e capaz de ser útil ao mundo (e não só para si próprio). Você se vê capaz de prover a si próprio e aos outros (aliás, anseia poder servir ao mundo), sabendo que também consegue preencher seus instintos mais básicos.
Não esqueçamos dos instintos aqui, pois é isto que diferencia a meia sublimação, incompleta (pensar apenas nos ideais elevados e sacrificar a própria vida em prol dos outros) da sublimação completa e verdadeira (mente e instinto ao mesmo tempo preenchidos). Para isto, em geral, há de se escalar degrau por degrau de uma escada. Pode-se, por exemplo, ganhar de uma hora para outra um cargo em comissão no serviço público, que faça seu salário triplicar, do dia para a noite, e te dê o poder para fazer o bem para os outros, como sempre quis. Isto pode cair do céu, no seu colo a qualquer momento. Mas um caminho contínuo de esforço e recompensa faz de tal forma um consciente maduro e capaz de avaliar as situações com o peso que realmente merecem em prol do ideal maior da vida, que tudo que é repentino e ‘de graça’ não pode ser considerado sublimação, pois não requereu esforço.

Como a consciência se desenvolve


Há uma regra básica em psicanálise: o desenvolvimento da consciência só se dá através de traumas e sacrifícios. Você só aprende se ‘sofrer’ na pele. E é a partir deste ponto que quero fazer outra reflexão, a partir de um ditado  popular: “Deus manda a pedra do tamanho que cada um consegue carregar”. Não vou debater religião aqui, mas vale muito a ligação entre sacrifício e sublimação a partir desta frase. Pode-se imaginar que pessoas ‘bem nascidas’ ou ‘bem apadrinhadas’ tem melhores condições de sublimar, pois desde cedo não precisam se preocupar com a ‘base da pirâmide de Maslow’ (necessidades fisiológicas, segurança, sociais...). Mas é exatamente o contrário. Pessoas que precisam se sacrificar muito desde cedo, desde que não nasçam na completa miséria (isto sim prejudica imensamente o desenvolvimento de qualquer ser humano, marcando eternamente sua vida e sua possibilidade de desenvolvimento em todos os sentidos) tem muito mais possibilidades de sublimar. Isto por conta da ‘criatividade’ à qual são obrigadas pelas ‘necessidades’ de adaptação social frente ao preenchimento de suas necessidades próprias.
Vou pegar um exemplo de minha geração, que para fazer trabalhos escolares, contávamos unicamente com bibliotecas, às quais precisávamos nos dirigir e passar horas e horas copiando à mão livros quando não podíamos fotocopiá-los (a maioria deles). Percebo que os que passaram por este período conseguem hoje extrair muito mais das possibilidades da internet que a geração seguinte, que nasceu e cresceu concomitantemente com a popularização da internet. Estes últimos não conseguem visualizar possibilidades que os primeiros há muito perceberam.
 A emoção que eu sentia quando saía em busca de um conteúdo em uma imensa biblioteca, até encontrar o conhecimento que buscava, consigo sentir hoje ‘surfando na internet’, mas não vejo esta mesma ânsia na maioria dos jovens com acesso a ‘banda larga’ bem maior do que a que eu tenho acesso. Não se trata de julgar a geração anterior, mas sim de levar em conta o que sempre li nos livros do professor ‘Nobel’ de Geografia, Dr. Milton Santos, quando ele, no seu livro ‘Por uma outra Globalização’, dizia que não há tecnologia superior ou inferior. Todas as tecnologias são importantes. O que muda é o valor e a utilidade que cada um dá a ela. E este valor será diretamente proporcional à dificuldade que cada geração enfrentou com a tecnologia anterior. Eu consigo datilografar bem e rapidamente (apesar de não ter mais minha máquina de escrever), mas isto me fez um ótimo digitador no computador, pois datilografar é muito mais difícil que digitar. A mesma sorte não tem quem começa a digitar diretamente no teclado, compreende? É o caso do corredor que coloca pesos no tornozelo durante os treinos. Correrá mais rápido quando não estiver com eles.

Criatividade, Sublimação e inovação


E sublimação também, como disse anteriormente, está ligada à criatividade, à arte, à inovação, a utilizar de maneira diferente algo que já exista. Para fugir da ‘unicidade’ de resposta do instinto, é necessária muita criatividade, muito jogo de cintura. Ainda mais se pensarmos a força que um instinto é capaz de ter sobre cada um de nós, e do tamanho da angústia que sentimos quando a sociedade nos ‘reprime’ o preenchimento direto destes mesmos instintos, e temos que recorrer a outras formas, muitas vezes parciais, de preenchimento.
O ‘amor cortês’, muito desenvolvido na idade média, foi uma forma de sublimar a imensa repressão dos instintos sexuais pela sociedade da época. A donzela a quem o cavalheiro tanto exaltava nos poemas desde esta época muitas vezes nem sequer estava próxima da imagem por ele criada em seus trabalhados versos. Os rituais de corte à donzela pretendida, equiparáveis hoje ao ‘chaveco’, à ‘cantada’, ao ‘estilo de aproximação’ ou seja lá que nome queira dar, continuam sendo formas de sublimar o instinto primário sexual, mesmo que de forma parcial. Quando ambos estão envolvidos ‘conscientemente’ na busca de um parceiro(a) para formação de uma família, ter filhos, cria-los e educa-los e ter plena responsabilidade sobre sua inserção na sociedade, estamos já falando de sublimação em graus mais elevados.
A grande diferença entre um e outro é que é fácil ‘por um filho no mundo’. O difícil é ‘realmente cria-lo’. Frase feita? Não apenas. Um é o cumprimento de um instinto, em que as partes no geral só querem se ‘aliviar’ da vontade que sentem de copular, por mais complexo que queiram tornar a tal ‘corte’ do casal.
Querer ter filhos, cuidar conscientemente deles, e buscar integrá-lo na sociedade mais que tentar realizar suas próprias frustrações através dele, isto sim é sublimação: realizar seu instinto natural, de maneira consciente.
A busca pelo poder e por mais dinheiro, como dito anteriormente, na maioria das vezes não passa de preenchimento de instinto. Doar o que te sobra e não faz falta, apenas para tentar apaziguar seu autojulgamento não é sublimar. Mas quando você realmente investe sua energia, vontade e se coloca de corpo e alma para ajudar ao próximo e a fazê-lo andar por si mesmo, sem nenhuma intenção de ser visto com outros olhos pelas outras pessoas ou de compensar as besteiras que fez na vida (ou até de querer garantir algum lugar ao céu), isto é sublimação. Mas não se preocupe: ninguém além de você saberá de suas verdadeiras intenções. Se você aceita, por exemplo, receber dinheiro sujo, ser corrupto, ser injusto com os demais, ou até mesmo aceita que isto aconteça ao seu lado e se omite (como se a omissão também não fosse uma escolha), não pense que seu inconsciente alimentará sua consciência com rios de energia (ou ‘libido’, como queiram os teóricos) à vontade. Grande parte dela ficará retida no inconsciente, até a represa estourar e inundar a consciência com tudo que você queria esquecer ou fingir que não viu. Estas águas levarão também todos os seus sonhos e desejos, e te farão voltar aos mais básicos dos instintos (há aqui uma grande ligação com os vícios, crises de neurose aguda, doenças somáticas e depressão). Mais uma vez, não pense que tudo acontece por acaso.
Pessoas com alto nível de sublimação ficam também doentes, mas suas doenças não afetam sua mente, seu humor, e mesmo fisicamente os danos (quando há) são bem menos intensos, mesmo nas doenças mais graves. Sua energia está fluindo, mente e corpo estão caminhando juntos em prol de um objetivo comum, maior. A própria pessoa construiu seu conceito pessoal de qualidade de vida e vive nele, por mais hostis que sejam as condições na qual esteja. E segue seu caminho, mesmo que não chegue a percorrê-lo todo.
Pareço filósofo, ou místico demais? Até considero um elogio se assim for denominado. Certamente meus amigos das diversas linhas de psicologia (em especial os junguianos e freudianos) devem estar, talvez, caracterizando como um sacrilégio as misturas de conceitos que fiz neste texto. Mas ressalto, mais uma vez, que trata-se de um resumo da minha percepção pessoal das diversas teorias que conheço e li, assim como nos outros textos deste site. Espero ter ajudado, com minha visão, a outras pessoas a também entenderem a si próprias e sentirem mais profundamente a retidão do caminho que estão seguindo. Lembrando que cabe a cada um julgar a si próprio, já que a colheita (Carpe Diem) é individual.
Até mais! 
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