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quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

ANO NOVO, PROMESSAS, DESEJOS e a SEMENTE DE CARVALHO

Estamos no dia de ano novo, feriado mundial, dia de ressaca (para muitos) e, querendo ou não, dia de recomeços, de reavivar sonhos e desejos, fazer promessas, avaliar (ou tentar esquecer) as promessas feitas no passado e sonhos que não se concretizaram. Apesar dos muitos e muitos textos que são publicados nesta época sobre promessas, até com metodologias complexas para subdividi-las em pequenas tarefas e acompanhamento contínuo de sua realização, bem no estilo 'Qualidade Total' das empresas japonesas da década de 70... não será este meu foco. 
Normalmente ou faremos de tudo para esquecer o que deu errado e não alcançamos no último ano que passou, ou superavaliamos os sonhos que queremos realizar no futuro como compensação, (ás vezes as duas coisas). Invariavelmente, em menor ou maior grau, nos decepcionamos com o que não conseguimos realizar, esquecendo que é natural sonhar e querer mais e mais, mas principalmente, porque esquecemos que a vida existe independentemente de a vivermos ou não.
Não se trata do grau de realismo, de concretude, de 'pés no chão' que você tem... por mais planejado que você seja, por mais 'sob controle' que sua vida esteja, por mais 'programado' que seus 'sonhos', 'tarefas' e 'ações' estejam... a vida pode favorecer que elas aconteçam ou não. Você pode dar o nome que quiser dar a isto: sorte, destino, 'roda da fortuna'... mas a grande diferença que influenciará a forma com que você viverá no próximo ano que hoje se inicia, e todos os demais que se seguirão, é sua postura frente a este fato. Você pode tomar uma atitude fatalista, não querendo planejar, sonhar, se programar, desejar.... e apenas viver cada dia até que o outro chegue... ou pode acreditar na 'semente de carvalho', uma vocação à sua vida, seu destino pessoal como algo maior que você, independentemente de sua vontade...

Há um livro muito utilizado em Psicologia Analítica, em especial pelos 'neo-junguianos' (apesar de ser formado na Escola Clássica, rendo graças ao Sr. James Hillman, autor deste livro e um dos principais pensadores da Psicologia na atualidade) chamado "O Código do Ser: uma busca do caráter e da vocação pessoal" (não confunda com outros livros de auto-ajuda barata que também usam o termo 'código'..., até porque o livro de Hillman é bem anterior a eles, de 2001).
Recheado de histórias de vida das mais diferentes pessoas, tanto as 'do bem' quanto as 'do mal'... o livro nos leva a refletir sobre algo que é um ponto primordial na Psicologia Analítica de Jung: 'a individuação', ou em outros termos, a integridade da personalidade e do caráter de cada indivíduo. Independentemente do bem ou do mal que você faça  às pessoas e ao mundo à sua volta, a pior traição que alguém pode cometer é consigo próprio: é não viver a vida que seu 'destino', seu 'daimon' lhe reservou... Não explicarei aqui o que significa o 'daimon', até para incentivá-lo(a) a ler o livro... mas é um termo muito antigo (da época da antiga civilização grega), que simboliza os conflitos que vivemos (ou dos quais fugimos) ao longo de nossa vida, entre o que queremos fazer dela e o que o 'destino' nos reservou, porque 'tinha que ser'. 
Em árabe temos a palavra 'Maktub', que significa 'estava escrito', 'tinha que acontecer, pois estava escrito'. Nossa visão ocidental, imediatista e controladora vê o tal 'destino' como algo que 'poda' nossa liberdade de escolha e de ação. Criamos uma falsa noção que somos todos iguais, e esquecemos que a única coisa em que todos somos iguais é na capacidade de lutar e ter fé, e nada mais. Em tudo mais, somos totalmente diferentes um dos outros, e são estas imensas diferenças que temos, até mesmo dentro de nossas próprias casas e famílias, é que farão as virtudes, os destinos, o caráter, a vocação se manifestar. Se ela irá se manifestar ou não, aí está nosso livre arbítrio, o único direito que até Deus reconheceu ao ser humano contra o 'demônio'... mas é inegável que a vida quer algo de nós, independentemente de querermos algo dela ou não.
Em Psicologia sabemos da existência de vontades e forças muito além de nosso Ego e Consciência, que nos levam para os mais variados extremos da vida. Também sabemos que há disposições inatas com as quais cada pessoa nasce, e que levarão até o fim da vida. E por fim, sabemos que não há igualdade total em nossa sociedade (creio que talvez nunca existirá): podemos nascer e viver na mais pobre ou na mais rica das famílias, e alguns problemas existenciais sempre perseguirão nossa consciência e nosso Ego, cada qual à sua maneira.
O Caráter, acredito assim como Hillman e Heráclito, é Destino... é hábito. Temos que 'manifestar' nosso caráter. Não há pessoa de 'caráter' só no pensamento, só nos desejos, só nas promessas. Seu caráter (e consequentemente seu destino) se manifesta nas suas ações, no seu dia a dia, nas mais simples de suas ações. Provavelmente seus desejos de ano novo focaram coisas que você quer e deseja, as quais você acha 'justo' que a vida lhe dê, depois de tantos sacrifícios. Mas você já parou para pensar o que a 'vida' quer de você? Não o que a sociedade ou as pessoas ao seu redor querem. Não elas. A vida, a SUA VIDA! 
Olhe para você, de onde você veio, onde está, e para onde está andando. Talvez nem mesmo seja para onde você quer realmente ir. Mas já se perguntou se este caminho que está à sua frente, no qual você deu esta pequena parada hoje, feriado de ano novo, para vislumbrá-lo e imaginar as 'promessas' que podem estar no meio do caminho até o próximo ano, não faria parte de seu 'destino'? Será que este caminho que talvez você não goste e quer mudar, não seja o que a 'vida' lhe reservou e no qual você poderia ser 'quem realmente você é'? Será que este caminho não seria o único meio de trazer o seu verdadeiro 'EU' se manifestar no mundo 'real', e não ficar apenas no mundo de suas idéias, sonhos e desejos?
Não diria jamais que a vida não é perfeita... não diria isto. Eu diria: a vida simplesmente é. Nós é que não temos a capacidade de compreender a complexidade e a completude que a abarca. Se você for parar para pensar, a vida nem ao menos precisa de você... nós é que precisamos dela, e isto seria suficiente para você querer obedecê-la e alcançá-la no que ela exige de você. Mas não é tão simples: você está vivo, lendo este texto, e tem a capacidade de querer ser o que quiser... e é como a semente de um carvalho.
No livro de Hillman há a história antiquíssima deste conto (no último capítulo ele faz uma análise antropológica deste conto, até mesmo dos termos 'semente de carvalho' em várias línguas européias...). Uma semente tão pequena possui em seu interior a potencialidade de uma gigantesca árvore, desde que ela faça o possível para sê-lo. Sofrerá intempéries, raios, talvez cresça menos em meio a pedras, ou tenha as melhores condições para crescer acima da média. Poderá viver séculos, ou talvez não chegue a germinar por falta de terra ou água.... mas continua tendo a potencialidade em seu interior. Não nascerá um pé de goiaba ou de manga de uma semente de carvalho. E você sabe muito bem, olhando para si mesmo(a) que há coisas em sua vida que não poderá mudar jamais, ou porque não pôde escolher ou porque o tempo de fazê-lo já passou. Mas somos seres simbólicos, e nossa principal capacidade é encontrar um significado (como todo junguiano, acredito nisto): se procurar olhar toda a história de sua vida até hoje, e não apenas o que você deseja ter ou alcançar só neste próximo ano que se inicia, talvez consiga enxergar melhor esta imensa árvore crescendo e se desenvolvendo, e perceber (ou apenas sentir) um significado para tudo isto. 
Não deixe de fazer suas promessas e desejos de ano novo. Mas não fique chateado(a) se eles não se realizarem ao longo do ano, quando você se esforçou para concretizá-los. Talvez não era para ser. E se isto acontecer, olhe para sua vida e pergunte-a: para onde ela quer te levar? O que ela quer que você faça? Pelo que a vida te chama? 
Você não precisa acreditar em Destino, até porque temos nosso livre arbítrio (mais limitado do que acreditamos que é). Também não precisa acreditar que tem forças que te controlam mesmo contra sua vontade consciente (o inconsciente, a sociedade ao seu redor, os governos, sua família...). Mas para sofrer menos, talvez a melhor forma de começar este novo ano e os novos que se iniciarão seja tentar ser você mesmo(a), tentando mudar o que acredita ter que mudar mas sendo íntegro(a) com o que acredita, e sabendo que o melhor reconhecimento que se pode ter não é o das outras pessoas, mas aquele que você sente quando olha a si mesmo(a) e sua própria vida, quando teve a certeza de ter feito o que era possível quando teve sua chance!
Feliz ano novo! 
E obrigado a todos os leitores e leitoras nestes dois meses que fiquei distante sem escrever... retomarei aos poucos as postagens. Suas mensagens foram muito confortadoras e ajudaram à que eu pudesse me levantar e ver que tenho meu destino para cumprir! Até amanhã!
Adilson Cabral


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