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quarta-feira, 1 de abril de 2015

PROJEÇÃO PSICOLÓGICA e INGRATIDÃO: a incongruência na falta de consciência dos próprios problemas

Não se pode analisar o ser humano dentro de critérios lógicos e totalmente racionais. Por esta razão, a ingratidão humana, quando analisada sob a ótica da projeção psicológica, em vez de denotar uma falta de caráter, torna-se uma carência de desenvolvimento egóico, quase que uma infantilidade (que por infelicidade da humanidade, ainda é muito recorrente, independentemente da idade, classe social ou formação educacional dos indivíduos). Não há correlação direta entre um maior nível educacional e um menor nível de projeção nas relações pessoais do indivíduo (mesmo que ás vezes tenho a impressão que quanto mais instruídas algumas pessoas, mais insensíveis à sua própria carência egóica elas são... e mais necessitadas de um bom e longo tratamento psicoterápico também... chego a pensar que pessoas mais simples são mais saudáveis em termos psicológicos... mas isto é tema para futuras postagens). Mas o que é projeção, então? O que ela tem a ver com a ingratidão? Comecemos por aí, então...
Projeção é nossa capacidade de negar em nós mesmos algo que nos incomoda, 'projetando' este mal em quem está mais próximo de nós. Melhor dizendo: nossa incapacidade de aceitar nossos defeitos, nossos PIORES DEFEITOS, diga-se de passagem. Somos capazes de admitir pequenas falhas, mas grandes defeitos... só os grandes seres humanos é que são capazes de admitir.
 A projeção existe desde nosso nascimento, e é extremamente necessária para nossa rápida adaptação ao ambiente: ferramenta essencial de formação do Ego. Ego que é quem somos (ou pelo menos quem achamos que somos), é a separação entre o Eu e o Outro, entre você e sua mãe (principalmente). Sem o Ego, você não pensaria sozinho, não iria querer nada (quereria o que os outros quisessem por você), não teria opinião, não seria ninguém. Pense em um fantoche: seria alguém sem ego. 
Com a Projeção, o Ego se fortifica enquanto você forma sua personalidade: a criança é capaz então de se ver como 'boazinha', e acreditar em si própria, negando seus próprios defeitos. Até este ponto, isto é saudável. A criança naturalmente projeta quando, por exemplo, diz que quem quebrou o vaso foi a 'bola', e não quem a chutou... que quem comeu o bolo foi o 'gatinho', e não ela que é era a única capaz de abrir a porta da geladeira naquele momento e local. 
A coisa começa a tomar outra figura quando crescemos, ganhamos a capacidade de saber bem quem somos, conhecemos nossos defeitos mas passamos a justificá-los... esta 'racionalização' de nossos próprios defeitos (comum e diretamente proporcional à capacidade intelectual do indivíduo) é capaz de fazer grandes estragos, principalmente na vida das pessoas que estão em volta do 'projetor'. Dona da verdade, para esta pessoa tudo se justifica porque ela 'está certa', e qualquer um que discorde ou tenha outra opinião estará errado. Os demais passam, então, a receber toda a carga de projeção deste indivíduo, pela sua incapacidade de evoluir reconhecendo suas próprias carências e defeitos.
Vamos ser mais claros citando exemplos: imagine alguém que passe boa parte de seu tempo de trabalho no computador fazendo outra coisa que não trabalhar (navegando na internet, no facebook, fazendo atividades alheias ao seu trabalho), enquanto seus colegas de trabalho simplesmente se esgotam com enorme quantidade de serviço. É impossível que o inconsciente desta pessoa não a cobre, não transmita-lhe culpa de sua atitude incorreta... mas a reação do ego infantil deste indivíduo será a contrária da que realmente se esperaria de um verdadeiro adulto: ela adotará um discurso e uma atitude de que trabalha mais do que os outros, que estes deveriam receber mais carga de trabalho pois sua situação, em sua visão, seria injusta... um contra-senso, não é? Sim, mas é isto que ocorrerá: a pessoa que projeta o faz lançando nos outros suas próprias falhas...e não pára por aí.
Pense em alguém que ajude esta pessoa com carência egóica... este(a) será uma tela de projeção para os piores defeitos do projetor. E é aí que chegamos ao tema da ingratidão: pessoas altamente projetivas (portadoras de um ego mal formado, infantil) agem com o que seria caracterizado como 'ingratidão': ao mesmo tempo em que você age com profissionalismo, seriedade e honestidade, esta pessoa tentará lhe identificar como preguiçoso, desonesto, mentiroso, infantil... exatamente as próprias características que lhe pertencem.
A culpa, a vergonha, a inferioridade, a incapacidade, e todos os demais maus sentimentos que elas sentem são insuportáveis para seu pequeno e mal formado ego, sendo, portanto, lançados no inconsciente. Lá, estes conteúdos só tem duas alternativas: atacar a si próprio(a) (o pior caminho, transformar-se em uma doença ao somatizar-se, em uma neurose profunda ou em uma psicose nos piores casos) ou lançá-los na direção de quem estiver mair próximo e suscetível (geralmente pessoas com características contrárias aos seus defeitos, e às quais, no fundo, invejam, ou no mínimo desejariam ser iguais). O último é o caminho mais fácil, mais natural, o mais seguido pelas pessoas.
É aí que nascem as grandes injustiças nos ambientes de trabalho, nas salas escolares, na vida social no geral. Quanto maior o cargo do projetor, maior sua capacidade de fazer besteira e cometer grandes injustiças na vida das demais pessoas, por conta de sua própria inferioridade de maturidade psicológica, sua falha no desenvolvimento egóico. E infelizmente, ainda não temos muitos meios para nos defendermos deste tipo de 'doente'.
O máximo que podemos fazer, quando somos obrigados a estar em ambientes assim é ficarmos calados e nos afastarmos (quando for possível). Qualquer coisa que tentar dialogar com alguém projetando sobre você seus próprios defeitos é conseguir fornecer mais material para queimar no 'fogo' de sua projeção. Lembre-se: o que ela está vendo em você está na cabeça dela, não em você; você não conseguirá mudar a imagem que este tipo de pessoa tem de você até que ela procure um profissional de psicologia para tratar sua falha de desenvolvimento psicológico.
É lamentável quando vemos pessoas altamente instruídas e incapazes de reconhecer suas próprias falhas, seus próprios deslizes. Costumamos vê-las apresentando um discurso totalmente alheio às suas próprias ações, e se você tentar confrontá-la com suas próprias ações, provavelmente ela se tornará irascível e despejará contra você toda uma série de insultos e ironias, se não passar para um ataque físico: a pior coisa que um 'projetor' quer á sua frente é ser confrontado com a realidade: sua própria realidade (a de uma criança fragilizada e birrenta, no corpo de um adulto). 
Nas relações amorosas, estas projeções tomam outra figura: a do carregador das próprias falhas. É aquele(a) do casal que tenta mudar o outro, naquilo que ele(a) mesmo(a) deveria mudar. Quer um exemplo: geralmente os homens mais ciumentos são os que mais traem. Em menor número (porque influem outros fatores) também pode-se dizer o mesmo das mulheres muito ciumentas. 
Podemos fazer aqui diversas correlações neste âmbito: a projeção (muito se deve à descoberta e aos princípios gerais deste conceito ao inigualável Sigmund Freud) é a ferramenta básica de trabalho em qualquer terapia, e também pode ser a de análise comportamental em qualquer relação humana (de trabalho, familiar, social) desde que você conheça seus princípios e tenha um pouco de prática. Não é difícil reconhecer alguém com este nível de desenvolvimento egóico inferior. Sua principal marca é não reconhecer seus próprios erros. A segunda é querer mudar tudo ao seu redor. A terceira é quando ela pede sua opinião (se pede), e suas ações em seguida comprovam que o que você acha entrou por um ouvido e saiu pelo outro. A quarta (e não a última, mas encerrarei por aqui) é seu semblante de sofrimento: seu inconsciente sofre, por enxergar toda a verdade e perceber o fraco ego deste indivíduo se debatendo exteriormente contra as pessoas ao seu redor, enquanto sabe (sente dentro de si) que sua falha é interna, o que deve ser consertado está dentro. São, por isto, pessoas inquietas, constantemente em busca de mudar, aperfeiçoar... dizem-se perfeccionistas, buscam uma perfeição que está muito longe de ser atingida dentro de si mesmas.
São pessoas difíceis de se conviver e de se trabalhar ao lado, porque não vêem os que estão á sua volta como pessoas individualmente: agem como se só seu próprio umbigo existisse. Quando alguém fica doente, preocupa-se com o efeito daquela ausência vai fazer na sua vida, no seu trabalho... não dá a mínima para a dor, o sofrimento do outro. São egoístas, são ingratos... mas não acredite que se dão conta disto, pois não dão, pelo menos conscientemente. Em geral fogem de terapia e de psicólogos, porque sentem (e no fundo sabem) o que vão encontrar quando começar a remexer seu inconsciente. Tem medo de se descobrir, de admitir que precisam crescer. Tem medo de se ver. Tem medo de viver.
Até a próxima, e obrigado a todos(as) pelas centenas de mensagens solicitando que eu volte a escrever, depois destas semanas parado... voltarei aos poucos... em breve retomarei o ritmo de antes!
Adilson Cabral. 

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