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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

DEPRESSÃO e AUTORREGULAÇÃO PSÍQUICA: como seu inconsciente busca seu equilíbrio interior


Nossa mente é um complexo sistema autorregulado. Ela possui mecanismos próprios para nos fazer 'voltar aos trilhos' da vida que devemos viver, de ser quem realmente nascemos para ser. E ao contrário do que muitos pensam, a depressão, em seus mais variados graus (todos, de algum modo, sofremos em algum grau, em algum momento da vida pelo menos, de depressão), é uma das ferramentas mais importantes das quais nossa psique lança mão para fazer-nos voltar ao eixo. Mas tal qual a febre que, a partir de determinado limite, pode matar ao invés de curar, assim também se dá com esta 'doença', já considerada a epidemia do século.
A Depressão, enquanto descrita nos manuais de psicodiagnósticos modernos, passou a abranger a mais ampla gama de comportamentos e atitudes, a ponto de dificilmente alguém  conseguir escapar de um diagnóstico, criteriosamente levado ao pé da letra dos textos atuais. Quanto a este aspecto, necessário dizer que isto faz parte de um movimento (que já começa a encontrar resistência nas mais diferentes áreas médicas) de patologização da vida moderna. Trata-se de considerar-se doentio os mais diferentes comportamentos que fujam de um determinado padrão, considerado ideal. Isto já não funciona mais, apesar de ser o comportamento ainda muito seguido nas ciências médicas. 

Na área da cardiologia, por exemplo, já não se segue mais estritamente a regra de que a pressão arterial perfeita é a de 12 X 8, e de que toda pressão arterial medida diferentemente deste padrão é doentia. Não é mais assim. Também não se segue o Índice de Massa Corpórea como critério de obesidade, pura e simplesmente, ou de magreza excessiva. Questiona-se, dentre outras coisas, a necessidade de cirurgias quando, por exemplo, um câncer é benigno e não evolui, sabendo-se que cada caso é um caso. Por que seria então diferente na área da Psicologia?
Há mais de cem anos, Carl Jung já escrevia sobre a autorregulação psíquica, e ao longo de todos estes anos diversas foram as pesquisas na área e psicologia analítica que comprovam que, até determinado nível (cada pessoa individualmente em seu próprio nível) a depressão é capaz de modificar a estrutura de pensamento do indivíduo, de modo a retirá-lo de um 'círculo vicioso' de um complexo pessoal, para levá-lo a um novo patamar de ação e de vida, sem a qual, sozinho, não conseguiria atingir.
Claro que devemos falar com muito cuidado deste tal limite: há um determinado ponto a partir da qual é necessária séria intervenção externa pois a paralisia do indivíduo pode aniquilá-lo totalmente (seja pelo risco de suicídio, pelo total bloqueio da vida social, pelos altos prejuízos em sua vida familiar e profissional, etc.). Nestes casos, todo cuidado é pouco. Mas assim como uma febre que, mantida em determinados limites, é sinal da reação própria do corpo à doença que o ataca, níveis toleráveis de depressão no dia a dia são capazes de fazer-nos sair de complexos pessoais, e evoluir psiquicamente. 
Ao perder um ente querido, alguém que se ama, ao perder-se a perspectiva de um mundo melhor, nosso inconsciente passa a trabalhar, na maior parte das vezes, a nosso favor, por mais que sintamos s frieza e o desamparo do mundo quando a roda da fortuna parece ter-nos abandonado. 
Ignoramos, na quase totalidade enquanto estamos em vigília, a fragilidade de nossa mente consciente. Nosso ego é uma estrutura muito frágil, e não tem a capacidade de abarcar, como imaginamos, a série de infortúnios (infinitos, eu diria) que a vida pode nos impor, quebrando nossa sensível rotina diária, e nossos planos pessoais. Cada um tem um determinado nível de resiliência pessoal, mas todos, a partir de determinado ponto de 'desespero', de 'tristeza', de 'fadiga', passa a não acreditar mais nas próprias forças, podendo ou continuar tentando, acreditando em algo maior que ele(a) mesmo(a), ou então desistir de vez, e recolher sua força afastando-a do mundo.
Em termos energético-psíquicos, na visão junguiana, depressão é quando a energia psíquica passa a fluir para o inconsciente, em vez de para o consciente e ao mundo exterior. Como sabemos, o mundo do inconsciente é 'habitado' por conteúdos que de modo algum agradam a consciência: lá estão nossas fraquezas, nossos medos, nossos traumas... e quando estes são 'animados' pela energia que antes era destinada ao exterior, uma nova configuração psíquica é vislumbrada... porém isto leva um pouco de tempo.
Enquanto esta nova 'vida' não renasce, sofremos, e muito. Se uma tristeza exterior fez o indivíduo recolher sua energia psíquica ao seu interior, a dor proporcionada por este renascimento dos traumas internos é exponencialmente mais dolorosa... porém extremamente necessária, na maioria dos casos.
Fugimos da dor, enquanto seres humanos, talvez (relembrando Freud, cuja obra é admirável) porque isto nos relembre a maior dor pela qual todo ser humano já passou: a dor do nascimento (na visão Junguiana, a 'queda do paraíso', pós ventre materno). Passamos a vida toda buscando retornar ao ventre da Grande Mãe... e a dor nos relembra que não estamos mais no Paraíso. Estamos bem longe de lá (pelo menos é assim que enxergamos, através de nossa consciência).
Mas não somos capazes de enxergar a dor da depressão, enquanto a vivenciamos, como uma oportunidade de renascimento. Grandes mudanças na vida ocorrem após grandes dores, grandes traumas. E isto é pura e simplesmente a atuação da autorregulação psíquica de nosso inconsciente. Neste ponto estou de mãos dadas a Jung e contrario a Freud, visto que também enxergo na atuação do inconsciente não uma anomalia, mas um funcionamento natural de nossa própria constituição humana, que parte da ciência médica esqueceu (e parece tentar recuperar). 
Por milhares de anos a raça humana conseguiu superar problemas infinitamente superiores ás suas forças, e não desistiu. Adaptou-se, melhorou, aperfeiçoou-se. Na Antiguidade, na Pré-história não haviam antidepressivos, e mesmo assim, é certo que aqueles hominídeos sofreram, tiveram medo, pensaram em desistir, choraram, desiludiram-se... mas prosseguiram, e hoje estamos aqui. Guardamos em nosso interior milhares de anos de evolução na forma de instrumentos psíquicos autorregulatórios que nossa consciência não tem acesso, mas que atuam assim que necessário quanto esta frágil ferramenta se mostra incapaz de encarar a realidade.
Algo maior sempre puxou (ou, então, empurrou) o ser humano para frente, para seguir seu caminho. A dor e o sofrimento é como um tapa na cara da consciência, para fazê-la enxergar além de seu próprio umbigo. Levamos tempo para perceber isto, e que muitos antes de nós, e outros muitos depois de nós, passaram e passarão por problemas iguais ou maiores que os nossos. Que devemos nos levantar e tentar, seja de outra forma, seja da mesma, mas devemos tentar.
Os conteúdos do inconsciente passam grande parte de nossa vida relegados, esquecidos. São os conteúdos que não queremos lembrar que existem, sobre nós mesmos. Mas são eles capazes de nos salvar quando a energia psíquica deixa de fluir ao exterior. É na sua fraqueza que estará sua maior força, sua nova possibilidade de vida, de crescimento, de renascimento. Podemos acompanhar um pouco destes conteúdos 'esquecidos' através de nossos sonhos. Em geral eles não nos agradam, exatamente porque são 'autorregulatórios'. Até mesmo os sonhos buscam corrigir nosso comportamento equivocado no dia a dia. Mas, repito, nossa consciência não quer vê-los, não quer lembrar que existem, e ao final, por mais claro que um sonho seja aos olhos de um psicólogo ao contar-lhe o mesmo, sozinhos somos incapazes de ver além do ponto cego que ele nos representa. 
Muita dor e sofrimento seria evitado se pudéssemos ouvir constantemente o que nosso 'eu inferior' tem a nos dizer. Mas a sociedade moderna leva-nos exatamente ao lado oposto: somos a sociedade dos 'selfies', dos sorrisos clareados, da alegria, dos pratos lindos e saborosos, das viagens divertidas.... não sobra espaço para os conteúdos do inconsciente, mesmo quando eles tentam apresentar-se a nós pelos sonhos, pelas nossas projeções, etc. É por esta razão que, nos tempos modernos, a Depressão é considerada uma epidemia: a diferença entre o mundo real e o mundo idealizado ficou tão grande, que para nos aproximar-mos do ideal é necessário relegar ao inconsciente quase a totalidade de nossa personalidade real... existe quase que um 'eu' seu completo em seu inconsciente, que vive das sobras de seu dia a dia, e do qual você somente se lembrará quando os problemas da vida lhe mostrarem que você não é quem você pensa ser. 
Nossa maior desenvolvimento humano, está dentro de nós mesmos, e não percebemos isto. Mesmo assim, este sistema regulatório continua a funcionar, tal qual um sistema imunológico que, a cada nova bactéria que infecta nossa 'frágil consciência', entra em 'estado de febre' (sugando a energia psíquica para o centro do inconsciente) para nos curar, e nos apresentar novas alternativas além do problema do qual estamos tentando fugir. 
A expressão 'chegar ao fundo do poço', dita por pessoas que se recuperaram de grandes problemas pessoais é clara demonstração desta capacidade, que todos nós temos. Não é mágica, é apenas acreditar (ou como se pode dizer, ter 'fé'') e deixar a vida seguir seu rumo natural, e não aquele que queremos forçar que ela venha a ter. 
Até a próxima postagem!
Adilson Cabral
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