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domingo, 13 de dezembro de 2015

PERCEPÇÃO SELETIVA, AUTO-ENGANO E AS REALIDADES FANTASIOSAS QUE CRIAMOS

Somos capazes, enquanto seres humanos, a criar a realidade que quisermos e vivermos nela, mesmo que à nossa volta os fatos conspirem para nos afirmar o contrário. Nossa mente é milhares de vezes mais poderosa que a realidade 'real', que, comprovadamente, é intocável por nossos sentidos. 
Sim, nós nunca seremos capazes de absorver por completo a verdadeira 'realidade' das coisas, por conta da precariedade de nossos sentidos e da nossa consciência. Mas gostamos de acreditar que sim, e criamos um mundo (que existe somente em nossa cabeça), e gostamos de vier nele. Até aí, não há problema. Podemos passar toda uma vida assim. A questão é acreditar piamente que não há outras possibilidades para esta realidade vivida, e tentar impor esta sua forma de ver e sentir a todos os demais à sua volta. Não apenas isto é doentio, como um total freio ao desenvolvimento psíquico pessoal e uma agressão à única liberdade que um ser humano pode ter verdadeiramente: a liberdade de consciência.
Há poucos minutos assisti a uma entrevista de uma renomada antropóloga brasileira, que falava de suas experiências de pesquisa, dentre elas as suas incursões em presídios e na 'cracolândia', para conhecer 'in loco' a realidade de presidiários e de adictos. Por uma questão de 'momento', não prestei atenção especial ao conteúdo de sua fala, mas à forma e uso da linguagem, para criar em minha mente o contexto que esta cientista estava buscando passar. Dois trechos em especial me chamaram a atenção, um com o qual pessoalmente concordo, e outro não...
Em determinado momento foi dito que a "experiência de um fato não é a única forma de se ter autoridade para se falar sobre um tema, pois a imaginação e a intelectualidade podem permitir que se analise contextos e situações sem precisar tê-los vivido". Concordo totalmente. Não precisamos perder um ente querido para saber o quanto ele nos fará falta. Não precisamos ser atropelados para ter a certeza que devemos obedecer às leis de trânsito. Não precisamos roubar ou sermos roubados para saber que isto é errado. Mas, mais á frente em seu diálogo, a mesma se contradisse, ao afirmar que "consegue não trazer a dor das pessoas que estuda à sua própria vida pessoal porque, para ela, sua principal máxima é que a dor do outro não é sua dor". Impossível isto ocorrer, e denota total desconhecimento da existência do inconsciente, além de confirmar um dos maiores males modernos: o de criar realidades fantasiosas e viver nelas, sem criar possibilidade de atualizações da mesma, ignorando a verdadeira realidade que grita ao seu lado.
Como pode a mesma especialista da área de humanas afirmar ao mesmo tempo que não vive a situação difícil das pessoas que analisa mas pode usar a imaginação para estudá-los, também afirmar que a dor do outro não é sua dor? É a esquizofrenia moderna vivida não apenas nas ciências, mas por toda a população.
Não culpo esta especialista, pois ela expressou exatamente o que se passa na sociedade moderna, e na vida individual das pessoas, da grande maioria: fala-se muito do bem geral, em termos gerais, de um mundo perfeito cheio de flores, amizades, sorrisos e bondade, e na prática existe um mundo em o que vale é meu próprio umbigo, o outro que sinta sua dor, pois eu não quero senti-la. 
Ora, claro que você não é obrigado a sentir a dor do outro. Você pode criar uma realidade que seja confortável para você, e viver nela indefinidamente. Não é isto que criamos no Facebook, no Instagran, nas redes sociais em geral e na internet? Neles, selecionamos o que concordamos, o que gostamos, o que 'curtimos'... deixamos de lado e ignoramos o que não queremos saber, ou aqueles com os quais não concordamos. Vejo a multiplicidade de facetas que as pessoas conseguem ter, agindo de uma forma e tentando mostrar ser outra pessoa. E parece que todos já se acostumaram com esta forma de ser, potencializada pelos meios virtuais, de se criar um mundo fictício, e simplesmente ignorar a realidade 'real' que existe.
Como disse no início, comprovadamente nossa mente, mais especificamente nossa consciência, é incapaz, sozinha, de definir um quadro exato da realidade. Não chega nem perto dela. Vários estudos já foram realizados, alguns muito simples, comprovando isto. Por exemplo, utilizando-se cores, analisou-se a capacidade das pessoas de definir com precisão o nome das mesmas, e o que ocorre é que, em casos não tão extremos, o que é um tom azulado para uns, pode ser esverdeado para outros... e assim vai. Recentemente, inclusive, tivemos uma polêmica sobre a cor de um vestido, cuja foto circulou na internet. Não houve pegadinha ou brincadeira, é exatamente isto que ocorre no dia a dia: cada um vê exatamente o que 'aprendeu' a ver, e somente poderá evoluir se desconfiar que esta realidade que criou não é a única possível, e que cada um tem sua própria e única forma de ver a realidade.
Quantos desentendimentos amorosos, quantas amizades não terminaram, porque um ou ambos não souberam respeitar a forma de ver do outro. Ambos poderiam estar certos, ou ambos errados. E no final, o que importa, se podem ver milhares de verdades, milhares de realidades? A teoria do Caos, assim como os modernos estudos da linguística ajudam-nos a entender que você pode tentar dizer algo clara e objetivamente, que isto não garantirá em nada que o que foi falado não seja interpretado de diversas outras formas pelas demais pessoas. 
Estava lendo um livro, muito interessante inclusive, sobre Princípios do Direito, do Dr. Humberto Àvila, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e lá ele fala exatamente sobre isto: sobre a grande indefinição de conceitos e classificações no mundo do Direito, e que cada um interpreta determinados conceitos de acordo com a forma com que pretende utilizá-los para se chegar a determinado fim. 
E não é isto que fazemos em todas as outras áreas da vida? Quantas vezes você, em uma conversa, parou para se colocar no lugar de seu interlocutor, mesmo que discordasse dele? É difícil fazê-lo, quando discordamos da pessoa, não é mesmo? 
Mas isto é pior quando a realidade que criamos destoa muito da verdadeira realidade que nos cerca. Em geral, criamos em nossa mente um mundo perfeito, e separamos tudo entre 'bem' e 'mal'. Claro que em geral estamos do lado do bem, e tudo que não gostamos, do lado do mal. Se algum amigo ou amiga discordar de você, coloque-o do lado do mal, ignore-o, faça-o não fazer mais parte do seu rol de amigos.... é mais fácil que encarar a possibilidade de você estar errado(a) ou então, que ambos estejam certos, devido ao caráter multifacetado da realidade. Já pensou que algo pode ser bom e ruim ao mesmo tempo, que pode ter mais de uma consequência ou característica?
Esta é a grande dificuldade encontrada pelas pessoas que agem de forma mais teleológica (creio que me incluo neste grupo): aqueles que agem enxergando um fim mais distante, maior, que os que estão à volta às vezes não estão enxergando, por ver apenas o gosto amargo do remédio, e não a cura da doença. Nossa sociedade moderna não aceita mais o gosto ruim do remédio: prefere viver na febre, ou porque acredita que a febre vai passar sozinha, ou então que não é a pessoa que está doente, são os outros que a vêem assim.
Desta forma, é claro que a dor do outro não é a sua, como no caso acima. Sua consciência bloqueia, por uma percepção seletiva, o que quer ver, e o que não quer ver ou sentir, envia ao inconsciente. E é aí que a mágica acontece: os conteúdos que estão no inconsciente não estão inertes, não está mortos, tampouco imobilizados. 
O inconsciente é o grande caldeirão da humanidade, e é em grande parte coletivo. A falta de empatia desta antropóloga é exatamente a mesma de grande parte das pessoas que ignoram o sofrimento seja dos adictos da cracolândia, quanto dos presidiários (enquanto seres humanos, em seu direito/dever de cumprir sua pena com dignidade e serem recuperados pelo Estado). Não é só ela que ignora, que não sente a dor deles. E não é só a dor deles, ou só a dor, que não é sentida. Vivemos em um mundo em que a cada mais as pessoas acreditam que como num passe de mágica problemas deixam de existir apenas com o pensamento: que basta pedir a Deus perdão pelos meus pecados que posso cometer outros... que basta cumprir rituais, ter amuletos, ou acender uma vela para determinada entidade que posso continuar agindo da maneira que sempre agi, não preciso melhorar como pessoa, não preciso procurar entender ou sentir o que o outro sente... afinal, parece que todos são donos da verdade...
Eu é que devo estar errado, afinal...
Uma ótima semana a todos, até a próxima!
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