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domingo, 13 de março de 2016

A ETAPA SEGUINTE À ESCOLHA CONSCIENTE: A MUDANÇA PERCEPTIVA NA EVOLUÇÃO GRADUAL DA CONSCIÊNCIA

"A história da origem da consciência", obra do autor Neojunguiano Erich Neumann aborda, através da antropologia, história e psicologia, os diversos degraus pelos quais a mente humana passou historicamente e cada um revivemos, individualmente, desde o nosso nascimento. A grande questão é que há grandes diferenças entre a evolução individual das pessoas, afetando sua percepção individual e levando a contrastes gigantescos entre o nível de consciência de alguns, frente ao nível de outros. Infelizmente os estudos de psicologia sofrem, em grande maioria, de um grande tabu retórico da sociedade moderna: a de que somos todos iguais, e estudar as diferenças psicológicas entre as pessoas pode contribuir à aumentar os contrastes sociais nos quais já vivemos. Infeliz prática retórica, aceita consciente ou inconscientemente por grande maioria das pessoas que, entretanto, não negam os efeitos, apesar de desconhecerem as causas deste problema: sociedade individualista, voltada ao prazer e alheia aos sacrifícios naturais e esperados de uma evolução e desenvolvimento psicológicos.
A partir deste ponto, sabemos que um dos primeiros grandes passos, conforme diversas postagens já feitas aqui no Psicologia.med.br, é a da escolha consciente: é saber o que se está deixando de lado para se buscar algo que se priorizou. Hoje, iremos falar além deste ponto: a dor da perda do que se deixou de lado na escolha consciente, e a regressão que acomete muitos nesta fase pós escolha, bloqueando o desenvolvimento de sua consciência. 
Toda escolha nos remete a uma perda. Perdemos a cada desejo que temos, pelo que deixamos de desejar em troca do que queremos. Perdemos as chances que deixamos de lado enquanto tentamos algo que nos parece melhor. Perdemos inclusive quando nos abstemos de escolher, enquanto aguardamos uma resposta que não queremos ou não somos capazes de dar a uma situação. Ter uma consciência evoluída, nesta etapa, significa estar consciente deste conflito interno, deste 'racha' entre a razão e a emoção, que te faz balançar de um lado a outro no barco da vida, aguardando uma resposta rápida para sair da tempestade. Mas você sabe bem: a evolução vem exatamente neste momento, em que você rebate sentimentos e razões dentro de você, até chegar a um denominador comum e tomar sua decisão, deixando uma ou mais possibilidades de lado, para escolher aquela que acredita ser a melhor para você.
Nosso Ego acredita que pode ter tudo, e a cada escolha que fazemos, a vida o 'esbofeteia' com a nua e crua realidade, impedindo que ele infle e distancie-se da realidade. E a cada obstáculo que ultrapassamos, juntamente com as perdas que acompanham esta ultrapassagem, significam acréscimos nos níveis de consciência e percepção da realidade que adquirimos. Poderá significar mais sabedoria e experiência de vida, lhe preparando para reflexões e vivências ainda mais profundas, mas isto dependerá do passo seguinte à escolha, um passo tão esquecido quanto importante para diferenciar as 'crianças psicológicas' dos 'verdadeiros sábios' ou que estão a caminho de tal: a autorresponsabilização pelas perdas da escolha que foi feita conscientemente.
Na prática, percebemos que muitas decisões feitas pelas pessoas conscientemente, não são tão conscientes assim: no fundo, a pessoa acaba por nutrir esperanças de que as perdas da escolha lhe 'caiam no colo' por algum milagre 'ex machina' (como no antigo teatro grego), como se assim merecesse por fazer 'sacrifícios'. Muitas vezes sem a plena consciência desta atitude infantil, as pessoas buscam justificar suas escolhas pretensamente conscientes, acreditando emocionalmente que merecerão uma 'ajuda dos céus' para recuperar o que tiveram que deixar de lado pelo que decidiram fazer.
Somos, como digo constantemente, mais 'irracionais' que muitos animais, em nossa complexidade. Estamos muito mais expostos a humores, a vontades inconscientes, a sentimentos dominadores, do que acredita a grande maioria da sociedade moderna. 
E é neste ponto que há a demonstração de que realmente não houve uma evolução do nível de consciência ou, então, que esta regrediu a um ponto anterior ao sacrifício da escolha feita. A vida é feita de escolhas e, estas, de sacrifícios em prol de coisas, situações, contextos que buscamos e queremos. Mas quantos estão dispostos realmente a pagar o preço verdadeiro do sacrifício feito pelo que se quer ter? Parece que poucos. 
Uma solução geralmente praticada é tomar a decisão como se fosse um simples jogar de dados ao ar, deixar a sorte escolher, e maldizer todo sacrifício que virá a seguir como se fosse algo fora de seu controle. Freud conhecia bem este mecanismo de projeção: é mais fácil culpar os outros pelas dificuldades à que eu mesmo me impus pelas decisões que tomei, do que admitir o que eu escolhi para mim em troca de algo que estou buscando, mas que a vida não me dará tão fácil ou simples como meu Ego gostaria que fosse. 
Subterfúgios, desculpas, fugas... nossa mente consciente é muito hábil para estes institutos... mas é muito preguiçosa para suportar o sofrimento da perda e o sacrifício das dores e dos obstáculos que temos que enfrentar para chegar onde desejamos. 
Importante saber isto, para que se possa autodelimitar qual o nível de consciência que você possui nesta etapa de sua vida, e assim perceber o quanto ainda tem que evoluir. Em geral, muito ainda, todos nós, individual e coletivamente. 
Não basta simplesmente escolher, deve-se estar preparado para assumir a responsabilidade pela própria escolha, e assumir a dor e sacrifício daí advindos, não como penitência da vida, mas como algo natural no processo de desenvolvimento e elevação a níveis superiores de consciência. Esta é a verdadeira sabedoria, que solidifica o aprendizado adquirido no difícil processo de aprendizagem da escolha. Uma escolha bem feita, seguida de 'arrependimentos',de 'culpabilizações' em vez de 'autorresponsabilização', só fará você regredir em seu processo de evolução de consciência e espiritual.
Os Franciscanos tem um ditado: "orai e vigiai". Espere pelo que o destino lhe trará mas vigie suas ações, decisões, vontades. Não pense que porque você superou o sacrifício de uma escolha difícil que merecerá alcançar o objetivo pelo qual se decidiu: foi apenas uma etapa de várias, até atingir seu objetivo. E durante o trajeto, novos aprendizados lhe serão ofertados, assim funciona a vida. Suportar estes sacrifícios como um processo de evolução natural é sinal de sabedoria e evolução, posterior  à capacidade de saber fazer escolhas e sacrifícios. E além disto, haverá novas etapas, cada uma mais difícil que a anterior.
Talvez por isto muitas pessoas se conformam em nem ao menos tentar ultrapassar a primeira etapa da evolução de consciência, vivendo coletivamente o que todos pensam, querem... e responsabilizando o 'todo coletivo' por todas as agruras e problemas que ela mesma se impõe. É mais fácil... mas não diria que é menos 'sofrido' ou 'sacrificante'... e sim que é apenas um sacrifício que em nada permitirá sua evolução ou dos demais à sua volta.
Pense: para isto o ser humano foi dotado de alta capacidade abstrativa. Reflita, olhe para dentro de si, perceba o que é melhor para você, e sinta qual é o caminho que possui um significado em sua vida. Não o que os outros dizem que é, mas aquele que você sente que é. Faça sua escolha e lute por ela. E não esqueça: o aprendizado está no caminho, e não no destino!
Até a próxima postagem!
Adilson Cabral.

  
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