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domingo, 6 de março de 2016

A RELAÇÃO ENTRE A ÉTICA E A SAÚDE (FÍSICA E MENTAL)

Pela minha experiência, sei que alguns temas chamam mais a atenção que outros. Assim como o próprio Google me indica, nos relatórios de minhas postagens, sei que o tema Ética chama muito menos a atenção dos leitores que o tema Saúde Mental ou Corporal. Um tema muito pouco discutido na maior parte das faculdades de saúde do Brasil e, quiçá, do mundo hoje, mas que em certos núcleos de estudos especializados já é tema há muito analisado e com grandes avanços recentes é o da Psicossomática: a relação entre as doenças do corpo e da mente. Na linha de estudos junguianos, creio, aprofunda-se ainda mais esta relação, pois na psicologia analítica inclui-se nos estudos a questão ética/moral e o comportamento do indivíduo, com sua relação consciente X inconsciente. Se você já está achando chato os termos técnicos, acalme-se. Serei mais simples nas explicações adiante.
Conforme já expliquei em postagens anteriores, temos um Centro da Mente, chamado Self. É o núcleo de nossa mente, está no centro do inconsciente e, por esta razão, é praticamente inatingível por nossa mente consciente. Neste Self, temos escrito qual será nosso caminho de desenvolvimento, uma espécie de chave de nosso destino, correspondente às nossas predisposições comportamentais e, muito mais do que isto, qual o sentido de nossa vida.
Por ser praticamente inatingível pela consciência (devido à profundidade na qual está no inconsciente, pelo poder e força que exerce sobre nós - a consciência não consegue se aproximar dele, apenas sentir sua presença, um "Mysterium Tremendum et Fascinosum" como diria meu querido professor Waldemar Magaldi), e pela nossa natural arrogância humana de acreditar que somos donos de nossos narizes e que controlamos totalmente nosso querer, nossas vontades e nossos atos, somente após um árduo e longo trabalho de autoanálise é que somos capazes de perceber os reflexos de atuação deste "arquétipo", o maor de todos, chamado inclusive de "Imago Dei" (imagem de Deus dentro de nós). 
Mas nosso foco aqui hoje não é o Self, e sim a relação da Ética com a Saúde.
O Self, enquanto arquétipo, tem duas raízes principais: uma é na parte somática, e a outra na parte "ideológica", do pensamento. Estão aí as bases da relação MENTE x CORPO, que a Ciência negou a partir do Renascimento, devido à separação dos estudos científicos da religiosidade, que trouxe benefícios mas grandes perdas como nos estudos desta interação.
Bem, todo arquétipo é chamado de psicóide, por conta desta relação: sua raiz ideológica, e sua raiz corporal. Se você não leu meus posts anteriores, saiba então que arquétipo são as estruturas básicas da nossa mente, que coordenam nossa forma de pensar e agir como todos os outros de nossa espécie humana antes de nós. Eles são, em termos de estruturas, iguais em todos nós. Mas em cada indivíduo, alguns são mais ativos e outros menos ativos, de acordo com nossa predisposição desde nosso nascimento (diria, inclusive, de acordo com nosso Mapa de Vida, que está gravado no arquétipo Mor, o Self) e com nossas experiências de vida que vão preenchendo alguns arquétipos, deixando-os mais ativos, ativando outros, ou desativando outros tantos. É uma relação complexa, e temos em psicologia analítica alguns arquétipos básicos já bem conhecidos, como a Sombra, a Ânima/Ânimus, o Sábio, o próprio Self, dentre outros). O próprio Ego é um arquétipo. 
O arquétipo é a parte invisível, diria que é a raiz, de todo complexo humano. Temos diversos complexos, como o Complexo Materno, Paterno, etc... como estudamos em Psicanálise, mas muito mais que estudar a origem de nossos problemas e formas de agir e pensar (como Freud pregava), na Psicologia Analítica (Jung) queremos saber o que o Arquétipo (através do complexo) quer conosco. O que ele pretende?
Todas estas estruturas que citei, e muitas outras estudadas pela Psicologia do Inconsciente, são partes de uma complexa engrenagem que é autorregulável, e que busca constantemente o equilíbrio. O equilíbrio não no sentido do que nós achamos que é equilíbrio, mas sim o que, considerando o todo de nossa vida e seu significado, significa equilíbrio. 
Nosso ego (nossa mente consciente) busca o prazer, o conforto, a continuidade... mas todo desenvolvimento, toda busca de um objetivo, encontra obstáculos, e para alcançá-lo nos força ao sofrimento, ao desconforto, à descontinuidade, à mudança. Palavras que nossa mente consciente encara como desagradáveis, mas que fazem parte da busca do equilíbrio. Imagine uma árvore que cresce. Enquanto é pequena o vento pode não lhe fazer tantos estragos. Enquanto é pequena também será leve e não causará grande impacto no solo onde está enterrada. Mas ao crescer e se desenvolver, encontrará desafios, problemas, deverá buscar o equilíbrio do peso de seus galhos com suas raízes, terá que buscar cada vez mais luz do sol para que a seiva possa alimentar todas as suas células, sua estrutura interna tornar-se-á cada vez mais complexa... e isto trará novos problemas, maior exposição a insetos e pragas, ao risco de ser atingida por um raio, etc... Mas nem por isto ela deixará de crescer e se desenvolver. 
É nesta parte que queria chegar. Temos um mapa dentro de nós, uma espécie de destino traçado, escrito no Self. Cada um tem uma missão neste mundo, e claramente o Self traz este objetivo dentro de nós. Nós sentimos até o que pode ser, mas nunca teremos sempre certeza do que será, do que encontraremos mais adiante. Mas está lá no Self, e, via de regra, todos os arquétipos inconscientes trabalham para nos levar até este caminho, que é nosso destino. Do outro lado desta 'briga' temos o Ego dentro de seu minúsculo espaço, a consciência. O Ego é pretensioso, acredita que é o dono de toda a sua Personalidade, que manda e desmanda no corpo e na mente... mesmo que há mais de 100 anos atrás já tenhamos provado que o inconsciente manda muito mais no nosso querer do que gostaríamos de acreditar...
É neste ponto que o Self começa a atuar tanto em suas raízes somáticas quanto ideológicas. Você e eu somos livres para agirmos, inclusive contrariamente à nossa verdadeira essência. Mas neste último caso, não estaremos sendo Éticos. Sim, enxergue a ética como respeitar a sua essência, ao mapa de seu destino escrito no Self e retransmitido por diversos sinais dos arquétipos na sua vida, tentando demonstrar a você qual é o caminho certo a percorrer, e por onde você não deve ir. Esqueça o que ao seu redor estão lhe dizendo, e preste mais atenção nos sinais que partem de dentro de você, e os reflexos de suas atitudes ao seu redor. Estar no caminho certo de seu destino não significa prazer, que tudo dê certo, e que todos vão lhe aplaudir. Não. Na maioria das vezes será o contrário.
Seguir o Self também não garantirá saúde. Por esta razão entenda que ser ético não significa saúde, tampouco o contrário é verdadeiro. Mas sim que existem doenças, tanto do corpo quanto da alma, que encontram sua relação direta na luta das pessoas contra seu próprio destino. 
Pela minha percepção, vejo que há relação direta, nos dias atuais, entre a diferença entre o discurso das pessoas e suas atitudes. Percebo que quanto maior a distância entre estes dois últimos, maior a predisposição a doenças do corpo, principalmente, algumas vezes relacionadas a leves e moderados distúrbios mentais.
Para ter um discurso (bonito) mas distante de suas próprias atitudes e comportamento, as pessoas são obrigadas a dispor de uma considerável quantidade de energia psíquica para defender sua consciência das investidas do inconsciente e seus arquétipos (na medida em que estes tentam reequilibrar o 'ser', para que se comporte de maneira condizente com seus ideais). De tal forma, e gradativamente, a pessoa cada vez mais tem que gastar mais e mais energia psíquica para proteger seus 'falsos' ideais (que só existem nas suas palavras) e distanciar cada vez mais o Ego do inconsciente, para tentar fugir de tais ataques inconscientes. 
Começa então um processo que deixa de ser autorregulatório e passa a ser quase que uma guerra interna para tentar criar um novo ponto de equilíbrio. Sonhos intensos (pesadelos), sensações de que não se está correto, maus presságios... são no início alguns indícios de que algo está errado, mas aqui o ego já está a tal ponto distante da realidade que fica difícil para uma pessoa com mediana autopercepção detectar onde está errando. Para ela já é normal ter um discurso 'lindo' no papel, e atitudes antiéticas e imorais, contra seu verdadeiro 'eu'. 
A partir de então o Self poderá tomar atitudes mais drásticas, dependendo do caso. Poderá fazer a energia psíquica regredir para diminuir as defesas do ego, causando em muitos casos uma depressão psicológica, que não será de todo ruim, se o ego souber 'receber' os ensinamentos e perceber quais as intenções construtivas do inconsciente, tentando criar um novo significado para sua vida. 
Em outros casos a pessoa continua resistindo, inflando artificialmente seu ego, acreditando ainda assim que é normal e natural a maneira com que age, distanciando-se de sua essência. Nestes casos podemos chegar a certas doenças psicossomáticas, em geral manifestando-se a médio e longo prazo, após diversas tentativas do inconsciente de tentar reequilibrar o corpo e a mente de modos menos drásticos. 
De uma maneira muito simples, seria este o processo, mas que ocorre de forma extremamente complexa e em constante interação com o ambiente à volta da pessoa. Aprofundarei ainda mais este tema nas próximas postagens, mas a intenção até aqui foi demonstrar a você, nosso leitor, que suas atitudes e comportamentos no dia a dia não deixam de ter reflexos diretos na sua saúde.
Se você é a favor do 'jeitinho', do 'chaveco' para conseguir as coisas, de tentar fazer as coisas da forma que dê menos trabalho ou de uma forma incorreta... saiba que seu Self, seu centro inconsciente, sabe exatamente suas intenções e seus erros. É quando você sabe que está errado, que o que está fazendo não é sua verdadeira essência, mas mesmo assim faz por prazer, por conforto, por ganância, por sede de poder...
O Self não atua do dia para a noite. É uma acumulação de "agir" que fará ele ter que tentar reequilibrar sua relação com o mundo e com você mesmo(a). 
Vivemos em um mundo, atualmente, que preza por discursos bonitos, e não pela verdade. E a distância entre a verdade dos comportamentos e dos fatos, contra a falsidade dos discursos e das ações mal intencionadas de algumas pessoas, somadas à omissão daqueles que deveriam impedir que determinadas coisas acontecessem impunemente, estão levando ao Self a agir diretamente na saúde de muitas pessoas. Diversas doenças relacionadas ao Estresse, no fundo, possuem raízes em questões éticas. Minha tese de Pós Graduação em Psicologia Analítica, denominada "A Sombra do Judiciário Brasileiro" demonstra bem a raiz comportamental de doenças no sistema circulatório, digestivo e doenças mentais nos servidores públicos analisados na pesquisa. No fundo, e em princípio, eles escolheram o caminho que percorreriam. Talvez não soubessem a doença que estava lhes aguardando, talvez se soubessem tivessem mudado seu comportamento e suas decisões antes. Mas hoje, creio, não podemos mais alegar desconhecimento dos reflexos de nossas ações em tudo que está à nossa volta, inclusive na nossa própria saúde.
Ser ético, ser transparente, não tentar 'dar jeitinhos', não tentar ir sempre pelo caminho mais fácil e sim pelo que você SABE MUITO BEM que é o caminho certo e correto, não tentar se o esperto, tudo isto não garantirá sua saúde, mas te levará para o caminho do autodesenvolvimento físico e mental, para novos patamares de problemas muito além e acima do nível mediano que vive a sociedade moderna. Um nível em que você, apesar dos problemas, poderá colocar sua cabeça no travesseiro e descansar sabendo que está fazendo o correto, o possível. Um caminho que te deixará mais próximo do Self. Um caminho que te fará sentir mais próximo do Ser Superior, ou, se você assim não acredita, um caminho que te fará entrar em um equilíbrio interno que se refletirá nos que estão à sua volta, levando-o naturalmente para onde seu destino escreveu que deveria ir, para ser o que desde o início, você sabia que seria!
Até a próxima postagem!
Adilson Cabral

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